12 fevereiro 2010

melhor

Compensa sempre sempre ser melhor. Melhor do que imaginamos ser.
O telefonista que tem uma profissão de merda a passar chamadas ao Dr. x, à tia do outro, à prima que conseguiu o emprego na câmara por cunha (e nem por isso será necessariamente má profissional, we never know). A empregada de balcão que sofre a vender soutiens que levantem as mamas à la Maxmen, enclausurada num centro comercial com luzes castradoras que tiram a aura a um anjo de alto calibre. O pobre do funcionário dos serviços de limpeza municipais, que limpa a porcaria das beatas que entopem as sarjetas no Bairro Alto (alguém imagina o trabalho que dá tirar essas beatas?). A mulher-a-dias que saca os preservativos do chão e usa uma picareta para decapar a comida dos pratos de há três dias, resultado de uma jantarada de amigos que beberam vinho a mais e fumaram umas cenas depois das 2 da manhã... E ainda assim ser melhor compensa. Quem se supera, nem que seja a vender bolas de berlim na praia, há-de ser sempre melhor que si mesmo, e assim melhor que toda a gente. Há-de ser melhor que todos os "executive" qualquer coisa em estrangeiro. Há-de ser melhor que os 400 ou 500 euros que ganha. Há-de ser melhor que o rendimento mínimo ou de reinserção, como se diz agora. Há-de ser melhor se quiser ser melhor.
Alguém há-de reparar quando ouvir uma voz simpática do outro lado do telefone, sem sonhar que essa voz caminhará até ao Metro para daí a umas horas fazer o jantar de salsichas para os filhos: há-de reparar no chão limpo e na louça arrumada, sem imaginar que essas mãos irão cuidar do marido, da sogra, dos netos, com carinho e abnegação pessoal; há-de notar que as ruas estão mais limpas, sem vislumbrar os olhos que depois de escrutinar as beatas nas sarjetas vão ler livros que contam estórias de outras ruas e de outras cidades; há-de reparar que alguém conseguiu dar boa forma às suas mamas (e se isso é importante, ou a Ophra não teria dedicado um programa inteiro à importância da escolha de um bom soutien), sem saber que essa empregada de balcão provavelmente não terá homem que lhe ligue.
Compensa sempre ser melhor porque alguém um dia há-de reparar. Compensa sempre ser melhor, onde quer que se esteja, porque a melhor competição é a que travamos connosco. Por muito miserável que seja a vida e este país.

1 comentário:

Bruno disse...

Linda!

Simplesmente brilhante.
BT