08 Dezembro 2009

o medo

O medo é uma catástrofe natural.
Natural porque é humano, catástrofe porque nos leva a cometer e a pensar (o que ainda é pior do que cometer) grandes disparates. Mas como em todas as catástrofes, o que se segue ao medo é inevitavelmente melhor, porque assim estava escrito na profecia que vem antes de todos os tempos: tudo o que acontece será por um acaso pensado, ou por um destino irreflectido. Como quando se diz que "tudo acontece por uma razão", mesmo que essa razão seja fruto de uma obra passional concebida por Deus(es). As profecias servem para acreditarmos nelas ou não, e eu acredito.

O medo, como escreveu Alexandre O'Neill, num poema assombroso, "vai ter tudo", mas antes que cheguemos a ratos, eu acredito que o medo vai salvar-nos; de sermos filhos da puta, de entrarmos com ganas de maiores em todas a sedes de poder raiano com a corrupção, de sermos rasteiros e manipularmos, de sermos moles de espinha, de não nos permitirmos amar.

Se não fosse o medo, não estaríamos atentos, em guarda, na expectativa de sermos melhores.

Ter medo diferencia os heróis dos cabrões, impulsiona os grandes feitos, ajuda à humildade que nos escapa pelas mãos ávidas de agarrar o reconhecimento que não concedemos a nós próprios, dá-nos a adrenalina para ir em frente - mesmo que às vezes ir em frente seja voltar para trás, até onde nos lembramos de ter identidade.

Ai "o medo vai ter tudo", e serão muitos os que nem experimentarão tê-lo, porque terão medo do medo, mas serão também cada vez mais os que se agarrarão ao medo como a mais segura dúvida metódica para serem corajosos.

O medo serve para avançar. Assim tem de ser, antes que dê cabo de nós.

09 Novembro 2009

se o amor tivesse lógica não arriscávamos

“Se o amor tivesse lógica não arriscávamos”. Esta é uma fala roubada de uma série vista numa noite de insónia no sofá, com os olhos meio inchados.
Quando mudei pela enésima vez de canal, dei com uma criança que estava possuída por Deus. Nessa série Deus é “one of us” e tanto pode ser uma professora chata, como uma criança esperta ou um adolescente punk. E fala para além da Bíblia.
A criança lia uma história de princesas que acaba sempre com “… e viveram felizes para sempre”. A criança falava bem, ou não fosse Deus. Dizia Ela que depois do final feliz vem o trabalho. “O amor verdadeiro dá trabalho”. Mais uma fala roubada. Nem é grande novidade, mas dita por Deus... Guardei-as como se me tivesse caído a moeda que faltava no mealheiro onde conservo as boas e as más memórias emocionais.
E alguém perguntava porque não pode o amor ser mais simples, porque não podemos nós passar ao lado das discussões, das tentações, das angústias, das inseguranças?
E Deus falou assim: “Porque o amor é a mais bela e intensa luz do Universo, que ilumina tudo e todos. E como todas as luzes tem sombra”.
E na madrugada do nono dia do mês de Novembro eu descansei finalmente. Se à lógica nos convertermos jamais seremos capaz de amar.
Talvez até Saramago gostasse mais deste Deus. Um Deus que nos coloca desafios, mas não é castrador ou injusto. A liberdade é uma coisa fantástica. Com ela decidimos o que fazer com o destino. Não mudamos o destino, mas podemos escolher o que fazer com ele. E o amor é sempre o melhor caminho.

Nota: As falas roubadas não estão devidamente transcritas, porque não tinha papel e caneta à mão nem vontade de me levantar do sofá, mas querem dizer o mesmo. Palavra de Deus.

29 Outubro 2009

os meus amigos são melhores que os da vizinha

Há uns tempos, uma das minhas melhores amigas, a G., disse-me que já não tinha espaço dentro dela para fazer mais amigos, ou pelo menos amigos à séria, daqueles a quem temos de dar atenção a valer, ter linha aberta 24 horas, acompanhar nos bons e nos maus momentos. Ela acha mesmo que não consegue dar tempo de qualidade a mais ninguém e prefere manter em bom estado as amizades que tem.

Eu e a minha amiga somos muito diferentes nesse aspecto. E assim mesmo gostamos muito uma da outra. Sobretudo porque não há cobranças de tempo e atenção entre nós.

Mas a declaração dela chocou-me um bocadinho, porque, apaixonada por pessoas como sou, sempre que conheço alguém que vale a pena e as nossas almas se cruzam, zás... é meu amigo. É raro, sobretudo depois dos 30, isso acontecer. Por isso me sinto privilegiada.

Na minha geração as "amizades" vão adquirindo variações que roçam o interesse profissional (ainda que não interesseiro), os amigos de infância perderam-se em caminhos díspares, os de faculdade servem-se apenas nos jantares de turma, os do trabalho não passam disso mesmo, e há os que casaram e morreram para a vida. É triste. Mas eu sou, reconheço, feliz nas amizades.

Vieram se calhar as redes sociais e os blogues, com todos os prós e contras já muito evocados em várias sedes, contrariar isso, oferecendo novas formas de encontro e partilha. E há sempre, pelo menos entre os portugueses, o hábito de sentar à mesa e pôr a conversa em dia, mesmo que depois da sobremesa ou de uns copos estejam todos mais uns meses sem se verem.

No fundo, quando as pessoas se querem bem não há regras para a amizade. A amizade pode sobreviver na intermitência dos contactos, nos sobressaltos das várias fases profissionais e pessoais porque todos passamos, no desacerto dos nossos timings.

Há apenas um sinal que é preciso entender para saber se estamos em presença de um amigo ou de um conhecido:
Não importa à quanto tempo não estamos juntos, se quando nos revemos os olhos brilham e o coração se enche de felicidade. E depois vem aquele abraço. É de amigo.

17 Outubro 2009

o cavalo certo

A minha amiga G. tem uma mania que nos lambuza a boca sempre que a abrimos para as nossas intermináveis conversas, chama-se "situação limite".

Quando menos se espera, em quase todos os nossos encontros, lá vem ela: "situação limite... se só pudéssemos comer uma coisa até ao final da vida, o que escolhiam? Se só pudéssemos vestir uma cor qual seria? Se só pudéssemos ouvir uma música qual seria?" E por aí fora, até bater em todas as traves.

Já não sei porque voltas andei, hoje fui dar à brincadeira preferida da G. Se os homens só pudessem ter uma qualidade qual seria? E foi de rajada que me respondi: Coragem.

Coragem para nos amar. E a coragem só é precisa quando se tem medo.

Há assim três tipos de homens:

- Não têm medo e são os denominados filhos da p...
- Têm medo e são cobardes. São uns tristes. Merecem a nossa compaixão. E não o digo ironicamente, merecem mesmo.
- Têm medo e têm coragem proporcional. São o cavalo certo. Se apostarmos, o troféu é proporcional à responsabilidade. Por outras palavras: não convém armarmo-nos em parvas.

Há uns tempos escrevi: Um dia havemos todos nós de sair da idade emocional do liceu. Um dia.

o gosto dos outros 6

Não gosto de pés. Os pés dão-me cabo dos sapatos.

R., Lisboa, Outubro 2009


Nunca consegui perceber como é que uma mulher que adora, aliás, venera, sapatos, não gosta de pés. E é observá-la Chiado acima a colar pensos nos calcanhares comidos de inveja pelos sapatos comprados há menos de 24 horas... Claro que a culpa é dos pés, que não percebem os sapatos. Realmente as grandes paixões não se compadecem do corpinho.

15 Outubro 2009

e ele veio atrás de mim

Naquela noite as escadas, ainda estranhas porque são de uma casa alheia onde não me mexo bem, pareceram-me intermináveis. Foi como se estivesse a descer até a uma parte de mim, o meu piso térreo, onde tenho reservadas algumas coisas sem qualquer tipo de utilidade. A ideia é um dia arrumá-las todas.
Até aí tenho-me quase sempre passeado no piso superior, mais arejado, mais bonito, com pelo na venta, nariz empinado e uns sorrisos demolidores. E ainda um olhar que, dizem, é fodido. E esta é a primeira vez que escrevo semelhante palavra. Mas não foi eu quem a disse, apenas aqui transcrevo.


Naquela noite, dizia eu, lá tive de descer ao piso térreo, que felizmente tem uma porta de janelas largas, com saída para a rua. A noite estava quente, mas eu estava a ferver e o fresco soube-me como uma água tónica com muito gelo e limão em pleno deserto. Ainda um dia, aliás, hei-de fazer isso, e com um bocadinho de gin se o dia estiver a correr bem.

Naquela noite, desci as escadas com um desejo terreno de deixar cair umas lágrimas. No piso superior as lágrimas são quase sempre de crocodilo ou então ficam armazenadas em forma de dores de cabeça e peso nos olhos, como se fizéssemos uma barragem. E sabemos que as barragens não são coisas da natureza, são coisas dos homens inteligentes que se lembraram de as inventar.

As lágrimas que vale a pena à alma derramar são terrenas, viscerais, vêm dos intestinos feitos num nó pelo medo, do estômago contraído de ansiedade, da barriga prenha de emoções mal digeridas. As lágrimas são a força da verdade que às vezes não queremos ver, na forma da mentira, sombra companheira de toda a vida que nos ajuda a manter o perfil.

Naquela noite desci as escadas, fui à varanda e limpei o meu chão com algumas lágrimas. E ele veio atrás de mim. E então a barragem abriu as comportas. Ele veio nas suas quatro patas, com a sua baba nojenta e a tropeçar nas orelhas, coitado, e ajudou-me a lavar o meu chão. E quanto mais eu chorava mais claro eu via.

E depois voltei ao piso superior, com todos os meus trejeitos de sempre. Não engano ninguém. Mas também já não me engano a mim própria.

Obrigada G.

Ps - Este post é patrocinado por uma marca de toalhetes de um grande hipermercado.

13 Outubro 2009

acho mesmo muita graça a estes rapazes

Boa gente. E boa gente é difícil de encontrar. Sobretudo na blogosfera. (Embora nos conheçamos de outros filmes, ou de outros códigos...).

Vejam:
Esse Bandido
The Sock Gap

Um abraço. Afectivo.

Lisboa é uma gaja boa (poema retroactivo)

Lisboa é uma gaja boa...
... e vaidosa.
Cheia de curvas. Cheia de miradouros para se mirar, num jogo de espelhos narcisista.
O Tejo é um gajo vadio, com muita lábia e temperamental. Tão depressa parece um lago ou um rio muito certinho como o Sena ou o Tamisa, como logo se irrita e agita os pobres 'cacilheiros' que cobiçam a Cidade que protege.
Lisboa é também generosa, dá conversa a todos; Cristãos novos, mouros, celtas, viriatos, portucalenses...
Lisboa é uma bela actriz favorecida pela luz, que lhe disfarça as rugas. Não tem glamour nem griffe, mas tem muito mimo, feito beicinho, e uma falsa modéstia velhaca que lhe dá um certo charme.
Lisboa é mesmo uma gaja boa.

11 Outubro 2009

há dias felizes

Hoje é um deles.

exercício com final feliz

Uma vez disseram-me que é quando estou mal que escrevo bem.
Talvez por isso me tenham ligado ontem a perguntar se ando muito feliz pois não tenho escrito no blogue.

Não sei exactamente o que significa "estar mal", porque no fundo nunca estou verdadeiramente mal ou bem. Ultimamente, sobretudo, procuro simplesmente estar. Que é o verbo mais fácil de aplicar.
Estar é como a história do ovo de Colombo, tão simples e, ao mesmo tempo, de tão ceguinhos que andamos, estupidamente inalcançável.

É um exercício difícil, mas muito compensador, este que ando a fazer desde há dois anos. Estar. Aliás, nos últimos três anos, além de falar pelos cotovelos, é mesmo o único exercício confessável que pratico.

O que é estar? Como se pratica?
Não é preciso nenhum equipamento especial nem pagar mensalidades absurdas num ginásio.
Nem corremos o risco de sofrer lesões e de transpirar que nem uns doidos.

Estar é precisamente o contrário disso tudo. É não correr à frente do tempo. É não levantar pesos que não valem o esforço. É não alongar situações penosas. É não contrair músculos com medo do que vão pensar de nós. É, enfim, não trabalhar partes do corpo desnecessariamente, a racionalizar as emoções.

Estar é difícil de praticar. É peciso treino diário. Às vezes até precisamos de um personal trainer para nos ajudar a não desistir. Porque praticar o estar implica resistirmos minuto a minuto a deixarmo-nos levar pelas emoções negativas e, até mesmo, pelas positivas.
A felicidade não pode despender disso. A boa forma significa que aceitemos o bom e o mau sem confundir isso com a nossa identidade.

Estamos lixados com o trabalho? Estamos descorçoados com o namorado(a)? Estamos f... com falta de dinheiro? Ok. Então estamos isso tudo. Aceitamos que existe infelicidade, tristeza, desilusão, o que quer que seja, dentro de nós. Mas isso não pode significar que nos assumamos como uma pessoa infeliz, triste, desiludida. As emoções não podem traduzir-se naquilo que somos enquanto pessoas. O que sentimos não é o que somos.

É de facto um exercício difcil de praticar. Eu disse.
Mas a boa forma que dia-a-dia vamos vendo ao espelho... ui, se compensa.

Da mesma maneira, com as emoções positivas. Euforia, encantamento, enamoramento, tesão, liberdade económica, sucesso profisissional. Tudo isto faz-nos sentir felizes, mas cuidado para não nos esticarmos na passadeira a julgar que vamos ganhar as próximas Olimpíadas e bater recordes.
São emoções. Habitam-nos por tempo indeterminado e intermitente.
Vale a pena deixar fluir a raiva, a ansiedade, a revolta, a alegria, o desejo, a tristeza, a paixão, tudo. É assim que tem de ser e temos de nos aguentar.
O que não vale a pena é confundir isso tudo com o que somos. Somos para além disso.

E já agora, é verdade que estou feliz por estes dias, e até um bocadinho tola. Mas a neura está sempre à porta e o mau feitio também.
Se calhar não tenho escrito no blogue porque ando em treino intensivo.

01 Outubro 2009

mulher sem cão procura homem com coração

Se a minha vida fosse uma comédia romântica poderia ter este título: Mulher sem cão procura homem com coração... e sem cão.

Homens com cão? Não. Porquê? Porque não. Porque não não é resposta, diz a minha sobrinha Mafaldinha de três anos com o dedo no ar. Pois não é, mas para mim tem chegado e nunca ninguém me pediu explicações maiores sobre o tema.

Hoje resolvi eu mesma pedir-me explicações. E eu não consigo fugir a mim própria.

Ainda no outro dia olhava fascinada para o meu sobrinho de quatro patas, o Disco (um pug de sete quilos, com um focinho giro, giro, capaz de desarmar qualquer um), mas mantive, como sempre, a distância de segurança de pelo menos meio metro. A mãe não me perguntou porque é que eu não o metia no colo e o deixava lamber-me, como todos os outros tios fazem. Ela já sabe que eu não sou aquilo a que se chama uma dog person.

As dog persons são pessoas muito fora de mim, que eu jamais vou conseguir entender totalmente. No fundo admiro a sua capacidade de dádiva e de abnegação social. Ter um cão e devotar-lhe a atenção, o carinho e os cuidados que merece não é para qualquer um. E sinceramente sempre achei que não estou à altura.

Há várias teorias. Que tenho medo de uma mordidela, que fui atacada por cães em criança, que tenho a mania da limpeza e que confusão me fazem os pelos, as lambidelas e o cheiro, entre outras. E ainda o medo de sofrer mais uma perda. São todas verdade.
Mas, no essencial, a mais verdadeira é que ter um cão confronta-me com a fragilidade da vida.
Fico tensa quando percebo que aquele ser depende totalmente de nós, humanos, para sobreviver. Fico sem saber como lidar com a respiração, o palpitar das células debaixo do pelo, os rasgos de inteligênca, de lealdade e de total dependência que observo naqueles seres de quatro patas que levam muitas vezes as vidas dos seus donos à loucura.

Homens com cães foram sempre, portanto, um sinal de que os trabalhos são a dobrar.
Numa alegação perfeitamente egoísta e comodista da minha parte: um homem com cão é um homem que tem um grau de gestão dos seus afectos acima da minha capacidade. E num acto de contrição realmente digno do efeito inquisitório em causa própria: Um homem com cão tem menos tempo para mim.

Será da minha formação católica, ou a confissão é mesmo uma forma de libertação?

Pela quantidade de palavras acabadas em ão neste post, levo-me a crer que, por estes dias, ando com a palavra cão a soar com demasiada frequência na minha cabeça.

Não sou uma dog person. Não creio que alguma vez o seja. Mas sou uma pessoa que gosta de dog persons. Uma "dog persons lover", portanto. Servirá?




24 Setembro 2009

a menina dos fósforos

Disseram-me que as pessoas dividem-se em dois tipos: os fósforos e as velas.
Disseram-me também para preferir a chama constante de uma vela, ao clarão fugaz de um fósforo.
Tenho um problema: gosto de fósforos e de velas.

O acto de acender um fósforo, aquele som do raspar, o cheiro, o poder de dar à luz com um simples gesto, ainda por cima baratinho, dá-me prazer. Não se brinca com o fogo, ralhavam os meus pais. E ainda me ralham. Porque eu gosto muito das pessoas fósforo. Incendeiam e incendeiam-me. É um problema.

A presença de uma vela encanta-me. À média luz pode não se ver a comida que se tem à mesa para jantar e confundirmos a realidade inebriados pelo "ambiance", como diz a F.
Mas as velas ardem até ao fim, como escreve Sándor Márai na sua obra-prima.

As pessoas que são velas são constantes. Têm sempre os mesmos pés, apesar de caminharem em direcções várias; têm sempre a mesma cara, mesmo que assumam diferentes faces perante as vidas que vivem; não escondem a alma, ainda que vivam incoerentes.
As pessoas que são velas têm sempre o coração do lado esquerdo, seja ele calhau ou diamante.

Gosto das pessoas fósforo e gosto das pessoas vela. Gosto de pensar que ardem umas com as outras e que todos os fósforos podem um dia acender a vela que há na gaveta lá de casa para quando falta a electricidade. Quando um dia lhes vier à lembrança a luz da alma.

22 Setembro 2009

fui à terra (e uma antevisão de Novembro próximo)

Nos últimos dias fiquei sem argumentos, sem falas, sem bons diálogos. Perdi o rasto à minha personagem. Fiquei sem guião. Quando muito fui figurante e experimentei que quando nem papel secundário temos, tudo o que se observa, escuta e agarra, sente-se mais, dói mais. E até se chora.

Fui à terra. Foi o que aconteceu.

Quando vou à terra, no caso a minha cidade B, Coimbra, durmo numa freguesia rural, que está para a cidade do Mondego como Carnide está para Lisboa. Ali faço sempre duas coisas: visito o cemitério e os poucos familiares que me restam.
Fico sempre em paz por falar com os mortos e abraçar os vivos. O que na minha família é quase a mesma coisa, pois a memória cultiva-se mais que o presente.

A festa da minha família não é o Natal, esse é sempre passado em sossego, sem grandes ajuntamentos familiares e sem grandes consumos calóricos. A família é tão pequena que se divide pelas casas e mini-famílias que dela degeneraram.
A festa da minha família é a festa dos mortos, mas nada tem de mórbido, de tão natural que é.

O feriado de 1 de Novembro, Dia de Todos os Santos, é o dia em que esquecemos as dietas, comemos enchidos, mista grelhada com carne de porco a dar nas vistas, esquecemos o colesterol e a hipertensão que matou a maioria, fazemos um relatório sumário do que andamos a fazer na vida e acaba sempre com muitas castanhas (cruas para mim, se fazem favor) e muita jurupiga e vinho tinto. A política vem sempre à baila, claro, e é nessa altura que me ponho a par dos programas pólis e dos novos projectos para Coimbra. Com o adro da igreja da paróquia ao mesmo nível do Mosteiro de Santa Clara a Velha, que a minha família não tem muita noção da dimensão das coisas.

O dia começa três dias antes com a encomenda dos arranjos florais para as campas. A decisão entre antúrios e orquídeas é sempre muito pesada e a minha mãe exige ver, religiosamente, o portfólio das floristas. Depois é uma agenda complicada de gerir. Horas para ir buscar os arranjos, horas para colocar os arranjos e acender as velas que alumiam as almas. As nossas e as dos nossos mortos. E as horas em que começamos a fazer as brasas para o churrasco. E depois lá vamos em romaria juntarmo-nos a todas as outras famílias que no cemitério se encontram para celebrar. É mesmo uma celebração, das melhores que conheço. Abraços, risos, lágrimas, e a inevitável passagem pelas campas dos outros mortos, de pessoas que nunca conheci mas que eram "raparigas e rapazes da minha idade" como dizem a minha mãe e os meus tios.

É assim desde os meus sete anos. No dia seguinte é o meu aniversário. Quis o destino que eu nascesse no Dia dos Fiéis Defuntos. Eu sempre achei muito bem. Tinha lógica pois então. Que outro dia para eu nascer?

Neste último fim-de-semana, pensei nisto tudo. À memória dos Novembros passados, conclui que a vida tem uma lógica que às vezes só a morte nos faz entender. Calei-me por isso. Falei com os mortos em silêncio, pois eles já sabem tudo, muito mais do que até ao último suspiro nós saberemos. O mistério da vida é isso.

Fui à terra. Fui ao estádio, vi os cachecóis pretos da Académica, cantei a Briosa, vi os cachecóis azuis do Belenenses, lembrei-me de Lisboa, cidade A. Lembrei-me que o futebol não é assim uma coisa tão má, como venho dizendo nos últimos tempos.
Fui às compras, sem comprar. Lembrei-me que comprar trapos e pechisbeque não é assim uma vingança tão boa, como durante anos servi fria.
Fui à terra e fiquei sossegada. Nem um gin "éfe érre á", nem nada. Nem uma saída à noite para ver os rapazes giros de Farmácia (eu sempre achei que os rapazes do curso de Farmácia eram os mais giros, não me perguntem porquê). Neste fim-de-semana estive velha para isso. Lembrei-me que sentir-me velha para certas coisas, às vezes, não é de tótó.

Fui à terra e fiquei sem guião. O mistério da vida é não decorar papéis. Basta lembrar.

16 Setembro 2009

o melhor ainda é não saber

Nos últimos dias chegaram a este blogue via pesquisa no Google várias pessoas que buscam a resposta para esta pergunta: "como deixar de gostar de alguém". A culpa é deste post que escrevi. Entristece-me que vão sem resposta, mas não posso ajudar. É que não sei mesmo, e eu até tenho a mania que sei umas coisas.

Mas o amor, e o Sitemeter disso me dá conta mais uma vez, é a mais velha preocupação do mundo. Transversal a todas as idades, opções sexuais, estatuto económico, situação geográfica. Alguém duvida?
Falo, obviamente, do amor carnal, do amor romântico, do amor entre dois seres com a potencialidade de troca de fluidos, porque só esse é comum. O amor no sentido genérico, extensivo aos laços familiares aos amigos, aos pobres e aos fracos, o amor genuíno e puro, sabemos, não interessa a todos... Mas o amor romântico? Até as bestas e os psicopatas o sentem, porque é hormonal, visceral. Dir-me-ão que isso já pode ser uma utilização abusiva da palavra amor. É verdade, mas quem o sente, seja lá quem for, não sabe isso nem quer saber.

Havia um bêbedo numa terrinha que conheço perdida no interior do distrito de Coimbra que andava sempre a dizer: "O importante é o amor". E ele tinha razão.
Venham as catástrofes naturais, as guerras, a crise económica, o desemprego, as eleições, a carreira, o carro topo de gama, a barraca da Cova da Moura, o duplex... O importante é... vamos fazer coro: o amor.
Estou convencida que mesmo nas mais duras provas a que a condição humana está sujeita, desde a cama do hospital, ao acampamento dos refugiados, há-de ser o amor que tece as conversas e as preocupações.

Imagino assim, por exemplo, uma conversa entre dois homens num porão de um barco cheio de imigrantes famintos de uma vida melhor, sujos, com frio, com fome... Um diz: "sabes há uma mulher...". Pronto. As conversas começam sempre com isto "há uma mulher" ou "há um homem" e as inevitáveis: não sei se gosta de mim, achas que gosta?, o que é que eu faço?, porque é que ela não gosta de mim, não percebo aquela mulher, não percebo aquele homem.

Ninguém percebe o amor. Essa é a verdade.

Uma vez escrevi esta dedicatória a uma pessoa que me desasossegou: "O melhor ainda é não saber. Nada." Escrevi-a num livro que se chama Um amor feliz, do David Mourão Ferreira. Um dos meus livros.
Ninguém sabe como deixar de gostar de alguém, mas toda a gente sabe como é gostar. Isso devia bastar. O resto vem por si. O melhor ainda é não saber. Nada.

mais uma birra

Acabem com os restaurantes com música ao vivo já! Já não há sossego para jantar? Ontem tive de estar aos berros para ouvir e para me fazer ouvir. E o senhor ainda pedia para cantarmos, bailarmos e desfazermo-nos em palmas. Grrrrrrrrrrr Pelo menos baixem o volume, se fazem favor. Valeu, como sempre, a companhia.

14 Setembro 2009

cidade sentida

“ Ó tá nevoêrro, ó robarem a Trróia ! “
"Má fea qum batelão da Secil !"

in dialecto sadino mais recente
Fonte: um setubalense nascido e criado (obrigada BJ)



Tenho com Setúbal uma relação parecida com a que tenho com Almada, sou-lhes filha por empréstimo - uma foi o meu distrito, outra o meu concelho - mas nunca as considerei cidades na verdadeira acepção sentida da palavra, talvez porque durante anos vivi sempre o mais à beirinha possível do Tejo, pulando diariamente para Lisboa.

Antes que comecem a insultar-me, calma; Setúbal e Almada são cidades dignas desse nome, com vida e cultura próprias, e com a maravilhosa particularidade de partilharem as praias da Costa Azul (mesmo que agora se diga que robarem Trrroia).

Mas as cidades são para ser vividas ou distantes. Ou se vivem intensamente, ou estão longe de nós e queremos ir visitá-las, cheirá-las e imaginar como seria lá morar. Ora, Setúbal e Almada sempre estiveram demasiado perto e eu nunca as vivi como minhas. Não foram nunca cidades pensadas por mim enquanto tal.
Setúbal foi sempre o sítio ao lado, desde criança uma passagem para o Portinho da Arrábida ou para Tróia, ou um spot gastronómico onde se come choco frrrito e bom peixe fresco. Setúbal é, no fundo, uma cidade aonde tenho ido sem a fazer cidade e sem me fazer a ela enquanto cidade.

Lisboa sempre esteve perto. Vivo dentro dela. Vivi por duas vezes antes desta em permanente competição com a Caparica. Mas nunca nem hoje a senti aqui. É um lugar que está para além da sua condição terrena e existe antes de tudo na minha cabeça.
Aquilo que verdadeiramente amamos temos de o sentir longe, mesmo que cheguemos lá em cinco minutos. Só a sensação do longe nos faz querer estar sempre à beira do salto, ainda que saibamos exactamente onde vamos cair.

10 Setembro 2009

Lisboa hoje, só hoje

Hoje apetecia-me que a cidade dormisse cedo, no sofá, em frente à TV, num estado de imbecilidade e dormência, sem necessidade de servir copos, de sacudir-se ao som do DJ e da fusão mais recente, sem ganas de se colocar na primeira fila para a estreia da peça, do filme ao ar livre, da festa de inauguração daquele novo sítio com vista do miradouro. Hoje queria que Lisboa nem sequer se pudesse ver a si mesma, corresse as cortinas com desejo de privacidade, fosse católica com vergonha dos seus pecados, fosse púdica nos seus afectos, sem olhares, nem seduções, nem comida fora de horas. Hoje queria que Lisboa nem sequer comesse e fosse de castigo para a cama. Quem dorme janta. Hoje queria que Lisboa fosse uma aldeia entalada na serra, sem equipamentos nem agentes culturais. Hoje queria que Lisboa fosse feia, tão feia que nem interessante podia ser. E que recolhesse a roupa dos estendais, tapasse os azulejos com panos pretos e sofresse um apagão. E às escuras eu dormiria com ela.

puro prazer

Quando alguém ama sapatos desta maneira só pode ter os pés no chão.

A Lolita está de volta e mostra-nos o seu vício, o seu luxo e a sua paixão com o mundo a seus pés

09 Setembro 2009

Inimigos Públicos, onde está a história?

"Inimigos Públicos", o mais recente filme protagonizado por Johnny Depp, com realização de Michael Mann, está muito bem filmado mas quando saí da sala a primeira coisa que me ocorreu dizer, e de oca que me senti, foi: Onde está a história? A película vive da interpretação de Johnny Depp, excelente como sempre, e provavelmente a mais contida da sua carreira, que encarna John Dillinger, o assaltante de bancos que acabou por se tornar quase um herói na América dos anos da Depressão, pelo carisma que deixava no rasto de cada crime. O bom ladrão, cheio de estilo, lata e bom gosto, reparte a sua devoção ao crime, acima das convenções e políticas em vigor que despreza, com um amor intenso a uma mulher - Billie Frechette, superiormente interpretada por Marion Cotillard (oscarizada pelo papel de Edith Piaf em 2007).
Só a qualidade dos dois actores salva o filme cujo argumento é de grande inconsistência. Tem momentos belíssimos, é certo, - como a cena em que J. Dilllinger espectador de cinema se confronta com Clark Gable no grande ecrã a fazer de gangster no filme "Manhattan Melodrama", ou a cena em que assiste a Billie ser presa -, mas são apenas isso: bons momentos de filme, e tem alguns, mas desligados entre si, sem diálogos e uma trama narrativa que imprima intensidade dramática à obra.
Quem sai mais prejudicado pela falta de um bom argumento é a personagem de Christian Bale, o agente especial do FBI Melvin Purvis, que acabou por se suicidar um ano depois de finalmente ter posto fim à carreira de J. Dillinger. Ao longo do filme a personagem de Bale não adquire a solidez e a densidade emocional necessárias para fazer-nos sentir a angústia que o atravessa enquanto inimigo público de Dillinger, dividido que está entre o sentido de dever e a lealdade a um FBI investido de novas e mais duras regras no combate ao crime com as quais já nem sabe se se identifica. E esse é talvez o elo mais fraco e o que provoca mais fragilidade no filme.
Nem história de amor, nem história de Dillinger, nem história de gangsters. "Inimigos Públicos" só funciona porque andamos todos a ver filmes há tanto tempo, que já sabemos onde colocar os pontos nos is que faltam aos argumentos. E o Johnny Depp, claro, consegue sempre mover palavras e palavras de contentamento.

08 Setembro 2009

gula

Acabaram-se as dietas milagrosas, o Dr. Oz e as lágrimas nos programas da Ophra. Não mais teremos as inestéticas "asinhas do amor" (o nome até é querido, com um travo a luxúria), nem barriguitas. A minha amiga R. descobriu a cura para o excesso de peso. Ela está absolutamente convencida que se comermos às escondidas, sem ninguém ver, não engordamos. Mas atenção, ninguém pode sequer sonhar que comemos. Se devorámos o pacote de bolachas, é necessário repô-lo de imediato. Se o resto do bacalhau com natas foi à vida às três da manhã, deve dizer-se que estava podre e teve de ir para o lixo. Se o bolo de chocolate desparece misteriosamnete do frigorífico, levámos para o trabalho para dar aos colegas coitadinhos. A R. é magra e come às escondidas.

07 Setembro 2009

FCSH

Aos 15 anos decidi que ia entrar na FCSH - Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, da Universidade Nova de Lisboa, para fazer a licenciatura em Comunicação Social. Um dia fiquei deslumbrada com umas cavalariças que serviam de salas de aula. No telhado uns tipos apanhavam sol. Entendi que ali seria feliz e me formaria em grande estilo para ser a melhor jornalista do mundo e contar estórias nunca antes sabidas. Aos 23, disseram-me, saí comunicóloga e não jornalista. Michel Foucault, Walter Benjamin, Gilles Deleuze e tantos outros, semióticas, teorias da imagem e da representação, hermenêuticas e teorias políticas, tinham-me mostrado que ser jornalista era um pormenor. O curso serviu para alargar a minha visão medíocre, para entender que o mundo comunica desde as pedras da calçada ao vendedor de castanhas, e os média são apenas um dos pontos de passagem. E eu ouvi a FCSH a falar-me assim do fundo das cavalariças: Minha amiga agora é contigo. Entendi a mensagem logo nos primeiros tempos. Entendi-a cedo demais. Ao segundo ano virei as costas parcialmente à FCSH e dediquei-me à rádio. A rádio era como um amante, a tempo (quase) inteiro. Viciava-me e a FCSH não. Da rádio saí com a sensação de um dia voltar. Da FCSH saí com um diploma (e ainda estou para saber como). Maldita melancolia. Saudades da FCSH. Saudades da rádio.

deixar de gostar de alguém (oração)

Acontece. Custa. É como se uma parte nossa, à qual nos afeiçoámos com devoção, ficasse de repente para trás. E dizemos não, e ainda lutamos por ir buscá-la. Porque nos ficava bem, porque era só nossa, porque compunha-nos. São células inteiras de vazio. Nada é tão duro como sentir desfazer-se uma auto-imagem. E é bom que corram as lágrimas, ainda que secas. Chorar não é para todos. De repente deixamos de gostar de alguém. Já nem interessa se esse alguém ainda gosta de nós ou não, é completamente irrelevante. Um dia havemos de sair da idade emocional do liceu. Um dia havemos de ser inteiros e reunir todos os bocados que ficam para trás. Mas isso também não é para todos. Será para mim. Ámen.

04 Setembro 2009

festivais na moda

Na última edição do Indie, o festival de cinema com maior número de espectadores na cidade, logo seguido pelo Doc, creio, percebeu-se que os festivais de cinema estão na moda. De tal forma que são já uma marca da cidade. Contando por alto, são pelo menos dez os festivais que se realizam em Lisboa. O Motelx, a decorrer até domingo no S. Jorge, vai na terceira edição e, a avaliar pelo que tenho presenciado, não me espanta que este ano suba nas audiências.
O sucesso desses eventos resulta numa maior eficácia dos mecanismos de divulgação, na qualidade da programação e, factor primordial, dirigem-se a nichos de mercado, captando a atenção de vários públicos. Do cinema independente, ao cinema de animação (Monstra), à Mostra de Cinema Brasileiro e à Festa do Cinema Francês, e de expressão alemã (Kino), passando pelo documentário (Doc, Panorama), e pelo gay e lésbico (Queer), os festivais de cinema têm de facto tido um papel inegável na criação de novos públicos na cidade.
Claro que a palavra moda, sobretudo se associada ao cinema de cariz menos comercial, parece causar algum desconforto nos espectadores assíduos face a uma eventual perda da identidade alternativa. Falo daquele público de primeira hora, dos verdadeiros amantes de cinema, do espectador que se senta desde a primeira edição na sala meio vazia para assistir a filmes que não vê nos complexos comerciais. A esses pertence a paixão pelo cinema no estado mais puro. São eles que ajudam a que os programadores não desistam, a que as entidades oficiais não fechem a porta aos apoios, a que os patrocinadores surjam numa época de crise.
Com o tempo - e os bons eventos culturais demoram tempo a consolidar-se, não são imediatos, e por isso se tornam marcas na oferta cultural da cidade (o Indie começou com pouco mais de mil e hoje ultrapassa os 40 mil espectadores, por exemplo) - os festivais de cinema ganham território. Aos espectadores primeiros seguem-se os segundos e os terceiros e os quartos que nem sabem bem ao que vão, mas ouviram ou leram que é giro, saem da casca e atrevem-se a descobrir novos espaços e novas linguagens.
Ainda ontem, no S. Jorge, um miúdo com pouco mais de vinte anos dizia que nunca tinha ido ao S. Jorge, mas tinha ouvido dizer que era "muito louco" e que o Motelx era fixe. E isto não é mau. Eu acho até que é muito bom. Um vizinho do meu amigo, com mais de 40 anos, cinéfilo via DVD, foi pelo primeira vez a um festival para saber como era e só perguntava em que dia ia lá o John Landis, de quem é fã e vem este ano ao Motelx.
Isto é mesmo muito bom. Isto são novos públicos. E se a publicidade, um certo sururu social e nocturno, com uns laivos cor-de-rosa, umas caras conhecidas e umas festas e muitos flashes acenderem paixões cinematográficas, seja.
No Indie ouvi alguém dizer: "Isto está a ficar um bocadinho morangos com açúcar....". Para mim, desde que as fitas sejam boas e a cidade mexa, só não vale a pena é ter amargos de boca. Precisamos de açúcar, só não pecisamos é de eventos à pressão, feitos com corantes e fermento às colheradas.

03 Setembro 2009

ainda os homens feios

Gostar de um homem feio é uma tentação. Um estado de exibicionismo feminino. Achamos que somos mais belas quando mostramos sem vergonha ao mundo a capacidade de ver a beleza numa face masculina menos consensual. Basta um elemento bonito que se destaque no rosto: uns olhos expressivos, o nariz perfeito, os lábios carnudos, as sobrancelhas carregadas de ciúme, o queixo com covinha, o cabelo à McDreamy, um sorriso safado. Um destes centímetros de carne apenas pode fazer a diferença e servir de argumento para empenharmos os trejeitos mais sedutores que temos à mão. A voz de bronze e a inteligência emocional completam o quadro. E é verdade que também não podem ser demasiado bonzinhos.

o dilema das bonecas russas

A técnica do encaixe social leva-nos a viver acima das nossas possibilidades afectivas. Queremos encaixar no gabinete, na festa de casamento, no quarto da maternidade, na adopção, na relação extra-conjugal, na reunião de pais, no divórcio amigável, no divórcio à estalada, nas calças 36, nos sapatos 37, na revista rosa, no partido do poder, no partido do contra-poder, na inauguração, no namoro, no caso, no affair, na queca de uma noite, na relação para toda a vida, na abstenção eleitoral, na defesa de causas, no condomínio, no bairro histórico, na monovolume, no fiat 500, no Metro, no comboio, nas férias no Algarve, nos museus lá fora, no yoga, no reiki, na filosofia, no liberalismo económico, no Estado providencial, nos blogues, no twitter, no facebook, na recusa das novas tecnologias. Queremos encaixar. Metermo-nos dentro de alguma coisa e sentirmos que o assunto está arrumado. Mas a vida é como as bonecas russas, têm um sistema que desenrosca, salta a tampa e vêm todas cá para fora. Cada uma por si. E talvez mais felizes. E não necessariamente incompletas.

01 Setembro 2009

gosto de homens feios

Acabam de me provocar via telefone. Estás muito lamechas. Tudo porque escrevi um post sobre o valor dos amigos de infância. Sinceramente já escrevi coisas mais lamechas, o que num blogue que se chama Estado Afectivo é muito provável de acontecer. Assim, para repor os níveis resolvi fazer um post sobre homens. Apenas para dizer que este é um post sobre homens e nada lamechas. Gosto de homens feios, daquele feio muito bonito, mas tão bonito que desejaria que fossem homens bonitos para eu os achar feios. Perceberam? Pelo menos não é lamechas.

geração de 70

O melhor dos amigos de infância é que nos fazem felizes.
Assemelho o encontro com um amigo de infância que já não via há muito tempo à sensação que experimento quando olho para fotografias antigas e acho que afinal não estou assim tão mal no retrato como pensava na altura. Nunca vos aconteceu?
Os amigos de infância guardam de nós imagens, acções, atitudes, posturas e ideais que não fazíamos sequer ideia que naqueles tempos fossem capazes de captar. O quê? Mas tu tinhas essa ideia de mim? Eu era mesmo assim? Mas tu lembras-te? Como se aos nove, dez, onze ou doze anos seja impossível ter a maturidade de fixar o outro para além dos jeans elásticos e coçados, dos ténis da Nike brancos de lona com o símbolo azul turquesa. Na verdade, em tempo real, não se tem essa capacidade. Não conscientemente. No entanto, em nenhuma outra fase da vida, como na infância e na adolescência, somos máquinas tão perfeitas de armazenamento de factos e imagens dos outros. Sem edição, sem censura, sem perdão.
Depois, na idade adulta esses dados vêm-nos à memória, com legendas e comentários, e uma nitidez incrível.
Se é verdade que é nos amigos que nos revemos, que são eles o nosso espelho mais credível, serão os da infância os mais capazes de nos devolver a auto-estima, o reflexo das nossas melhores qualidades, e até dos defeitos que acarinhamos, porque não sendo pecados graves são coisas cá muito nossas e pronto. É sempre uma surpresa e é sempre comovente quando alguém com quem andei de bicicleta, a jogar ao bate pé, na escola ou nos escuteiros, se lembra de como eu era selectiva nas amizades, de como tinha a mania de pedir coca-cola com gelo e limão e mandar para trás se não vinha assim, de como gostava de organizar coisas e de dar sempre a minha opinião, de falar de ovnis, Deus e almas de outro mundo, de como me passava com as injustiças de nariz no ar, dos joelhos tortos que ainda tenho (desgraça), das birras. De tanta coisa. E a mim acontece o mesmo. Quando reencontro um amigo de criança, surpreendo-me sempre por me lembrar de coisas que na altura me passaram completamente despercebidas, e faço questão de dizê-las. Porque os outros merecem que lhes lembremos que a sua vida não passou em branco para nós. Somos tão nós em miúdos que vale a pena ainda sermos nós em adultos, com uns inevitáveis e desejáveis arranjos aqui e ali de sofisticação e reciclagem do que não importa. Talvez a amizade seja a melhor forma de nos recuperarmos. Talvez seja a mais genuína segunda oportunidade que a vida nos oferece.

normal, portanto

Na esplanada delicio-me com a normalidade dos meus amigos.

Ontei sonhei com o Pedro Mexia. O quê? E era lindo e dava-me beijos. Está bem. A minha amiga está bem de saúde e recomenda-se. A sério.
Esta semana acabei com o meu namorado. E eu fiquei assim a saber, finalmente, aquilo que sempre tinha supeitado: O meu amigo é gay. Fiquei feliz.
O que é feito dos homens de verdade? Só vejo gays! Pois amiga, os homens gay também são de verdade, e sempre são menos uns a dar-nos chatices. Mas eu compreendo-a.
Tenho um amigo que não bebia álcool, mas depois de ver o filme 'Sideways' decidiu que ia gostar de vinho. Agora é um perito e tem uma garrafeira espectacular. Abençoado seja o amigo do meu amigo. Ainda hei-de conhecer essa garrafeira.
Sonhei que em minha casa viviam mais dois casais e duas crianças. Psicoterapeutas no serviço nacional de saúde precisam-se. Estará isso nalgum programa eleitoral? A mais de 90 euros a consulta, são poucos os portugueses que se conseguirão entender a si próprios.
Lisboa está cheia de malucos. Opinião generalizada.
Este Agosto esteve um tempo fantástico. Idem.
É tão bom regressar a Lisboa. Disse eu.

E assim vai o mundo. Não está mal de todo.

25 Agosto 2009

antes do anoitecer

"Por isso quando pareço não concordar comigo,
reparem bem para mim:
Se estava virado para a direita,
voltei-me agora para a esquerda,
mas sou sempre eu, assente sobre os mesmos pés."

Fernando Pessoa, Minha incoerência de mim


Quando fiz 15 anos recebi de presente de aniversário das minhas amigas o meu primeiro kit anti-rugas. Fui também a primeira de todas a usar protector solar, numa altura em que andava tudo a besuntar-se daquele creme de cenoura que vinha de Espanha num boião e dava "um bronze", achava-se, espectacular. Havia ainda umas loucas que se banhavam em coca-cola, e eu benzia-me. Lembro-me bem quando fui à farmácia comprar o meu primeiro protector solar "especial para a cara", a senhora olhou para mim intrigada e perguntou-me se eu tinha algum problema de pele. Acho que lhe respondi que não, mas que também não queria ter. Ainda guardo o cheiro e a textura, era da marca Copertone e tinha factor de protecção 15, o mais alto que havia. Fui sempre, portanto, uma rapariga preocupada com a saúde da minha pele e embora tenha vivido grande parte da minha vida perto de praias, acabei por receber, já depois dos trinta, o maior elogio que se pode ganhar de um dermatologista: A menina não parece a idade que tem e isso é porque se protege do Sol. Eu sabia. O C. dizia que eu chegava a provocar insolações ao Sol, pois os raios reflectiam na minha pele e voltavam a ele ainda mais fortes... Ainda hoje, se algum amigo se esqueceu do protector, ninguém quer o meu : Não Ana, com o teu a gente não se queima. Mas eu queimo-me só com um arzinho. Sorte. Se não fossem os protectores ficava mesmo preta. Por isso sempre cumpri com brio o horário recomendado pelos médicos: sair da praia ao meio-dia e só regressar depois das quatro. Linda menina. E o que eu tenho infernizado as pessoas à minha volta com esta doutrina. Fundamentalista, gótica, exagerada, chata (o mais vulgar), etc. tenho ouvido de tudo, mas sempre, é certo, de forma carinhosa, como se eu fosse a voz da consciência em época balnear. E até já consegui que algumas amigas começassem a usar ecrã total (adoro este nome) todos os dias. São elas que me vão bater quando lerem o que aqui vem:
Este Verão virei-me ao sol sem temor. E tenho estado na praia na hora proibida. Ana, vamos embora. Nããooooo quero ficar mais um bocadinho, está tão bom. E durmo e viro-me no espeto, entorpecida pelos raios que penetram com prazer nas minhas costas. Bolas, e se sabe bem. Só falta arranjarem-me um protector solar com sabor a molho de churrasco. Por isso hoje fiquei de molho em casa, à sombra. Acordei com a cabeça tola a dar para o outro lado da almofada, escondida de vergonha, a pensar: o Sol vingou-se. No corpo tenho o cheiro a alfazema duma pomada para pruridos e alergias que, segundo o farmacêutico, este ano anda com muita saída. E dói-me o corpo todo, ai ai. Arrasto-me da cama para o sofá, e do sofá para a varanda, e da varanda para o chão. Pois é Ana Cristina, afinal também pertences à maioria que enlouquece no Verão. Meu querido mês de Agosto, sou uma entre tantas. E sou, mesmo quando me viro do avesso, sempre eu. Amanhã volto ao meu horário normal. A beleza e a saúde, por esta ordem (a sinceridade suaviza o pecado da vaidade), agradecem.

orgulho

Às vezes gosto de provocar e sinto orgulho nisso. Dá-me para isso instintivamente sempre que estou na presença de alguém que cai na exuberância intelectual, na arrogância de tudo achar saber. Quando começam a elencar doutrinas e autores lidos como se fosse uma lista de supermercado fico tão enjoada como quando andava no Expresso das Beiras, de Lisboa à Covilhã. A vertigem que sinto é semelhante à que sentia quando passava em Alpedrinha e fechava os olhos para não criar imagens mentais de um autocarro a cair por ali abaixo. E é isso que me apetece que aconteça a essas pessoas: que caiam por ali abaixo do pedestal académico. Que dizer? Não tenho paciência. Admiro pessoas sábias e inteligentes. Gosto de estar na sua presença, de ouvir, aprender, e para mim a inteligência é, não escondo, um afrodisíaco potente. Não suporto é quem enverga a erudição como identidade e humilha quem à sua beira emite inocentemente uma ou outra vibração, por muito ténue que seja, que possa servir de alimento ao apetite voraz dos intelectuais por disparates, erros e omissões. A última vez que senti a náusea do Expresso das Beiras, claro está que pequei mais uma vez. Depois de assistir a um vergonhoso debate entre um intelectual e uma pessoa inteligente (logo que não sabe tudo nem sonha saber), dei por terminada a conversa que pendia finalmente para o meu lado desta maneira: Ó pá não sei nem me interessa a tua pergunta, sabes, desde que saí da faculdade só leio a Vogue. Depois deixei o intelectual em Alpedrinha, a olhar lá para baixo, peguei na pessoa inteligente e fomos beber copos.