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07 abril 2010
analyse this
A esquizofrenia chegou à minha escrita e não sei o que fazer. Sempre gostei de estar acompanhada, de cafés cheios de gente, de muitos amigos à mesa, de muitos piscar de olhos, de muitos abraços e afectos. Gosto de gente e gosto de gostar e gosto-me assim. O meu percurso de vida sempre o fiz sozinha, mas numa solidão bem acompanhada; mantenham-se perto mas deixem-me em paz quando quero... mas mantenham-se perto, ok? E assim, chegou um convite para escrever num blogue de um amigo que conheci recentemente e com quem troquei apenas... quê? Duas ou três palavras e uns sorrisos. Gosto de sorrir e de querer bem a quem me parece bem. E tenho um talento: sei reconhecer as boas almas. É um facto. E assim, lá entrei no Amor nos Tempos da Blogosfera. Não sei porquê - talvez porque é um canto com mais gente, e gente é o meu negócio - deu-me mais ganas de escrever. Mas agora sinto-me esquizofrénica, e que me perdoem os que dessa deonça padecem, por estar a ser abusiva, mas eu abuso. Aqui no Estado Afectivo vou resguardar-me? Não sei. Vou bipolarizar-me. Escrever para não me deixar morrer de amor. Acho que é a única via para viver e errar.
10 janeiro 2010
a cor do álcool
O álcool não tem cor. É apenas um filtro. Por isso o bebemos. Ontem perguntavam-me como consigo divertir-me à noite e aguentar até tarde sem beber álcool... É simples: divirto-me com ou sem, mas de maneira diferente. Se bebo, relaxo e vejo as pessoas como são. Se não bebo, desperto e vejo as pessoas como elas gostariam de ser; o que revela muito mais sobre a sua identidade...
O álcool é um filtro que nos protege na noite. Mas muito mais eficaz do que aqueles inventados há uns anos para os computadores e que não serviam para nada. O álcool ajuda as pessoas a saberem o que fazer com as mãos, a dizerem o que querem e a ouvirem o que de outra maneira não quereriam. O álcool dá uma coragem falsa, mas fiel ao nosso lado mais selvagem. Para muitos é uma forma de aguentar a bebedeira dos outros. Para todos é a maneira mais fácil de descer a um nível de inconsciência primitiva, quando as batidas dos tambores tribais e os gritos da natureza bastavam para sermos felizes. A noite é hoje o caminho que encontrámos para regressarmos ao início dos tempos. Quando não bebo, o que é a maior parte das vezes, é uma forma de persistir na civilização. Consciente.
O álcool é um filtro que nos protege na noite. Mas muito mais eficaz do que aqueles inventados há uns anos para os computadores e que não serviam para nada. O álcool ajuda as pessoas a saberem o que fazer com as mãos, a dizerem o que querem e a ouvirem o que de outra maneira não quereriam. O álcool dá uma coragem falsa, mas fiel ao nosso lado mais selvagem. Para muitos é uma forma de aguentar a bebedeira dos outros. Para todos é a maneira mais fácil de descer a um nível de inconsciência primitiva, quando as batidas dos tambores tribais e os gritos da natureza bastavam para sermos felizes. A noite é hoje o caminho que encontrámos para regressarmos ao início dos tempos. Quando não bebo, o que é a maior parte das vezes, é uma forma de persistir na civilização. Consciente.
08 janeiro 2010
quando somos
Quando somos, somos grandes. Quando somos, podemos decidir deixar de fumar ou retomar por estupidez. Podemos mandar tudo ao ar ou decidir ficar. Entrar num bar, beber, dançar ou desatinar. Amar ou odiar. Comer ou fechar a boca. Dormir ou arregalarmo-nos sem medo da noite. Nadar ou afogarmo-nos na areia. Gastar bem, poupar mal ou crescer e conviver generosamente com o dinheiro. Quando somos, podemos abandonar casas, retornar a elas, escolher outras, imaginar algumas ou viver a céu aberto. Ouvimos a música que queremos. Dizemos ou guardamos as palavras que queremos. Podemos nada fazer por mal ou decidir fazer algo por bem. E se quisermos despir-nos? Também. E também podemos vestir caro ou piroso. Até podemos, quando somos, andar trajados de amianto com um isqueiro no bolso. Quando somos, somos grandes, e o que somos seremos até que nos doa ou alguém nos puxe para um lado ou para o outro.
Quando somos, somos infernalmente felizes ou infelizes.
Quando somos, somos infernalmente felizes ou infelizes.
19 dezembro 2009
a saudade até cola os cépticos ao tecto
A saudade está em tudo. E como a saudade só se escreve em português, é por isso que os portugueses podiam - se quisessem importar-se com as coisas práticas da vida (tais como a corrupção rasteira que nos tira do pódio da Europa) - estar em tudo, e em tudo em primeiro.
E a saudade é o exemplo maior disso. Os portugueses foram até agora os primeiros a dar o nome a uma coisa que todos os povos sentem mas não têm língua para falá-la numa única palavra.
Ou seja, somos os únicos que sabemos dizer um sentimento que toda a gente tem.
E os outros ficam mudos. E é uma mudez que os cala na presença de tudo o que acontece no mundo. Porque acima de tudo queremos dar palavras às coisas. Ponto.
A saudade está em tudo. E, assim, a saudade é tudo o que é alguma coisa na vida. E o seu contrário.
Acordamos com saudade da cama.
Acordamos com saudade de ir para a rua.
Deitamo-nos com saudade do dia que passou.
Deitamo-nos com saudade de dormir.
Comemos com saudade da comida da mãe.
Comemos com saudade de podermos comer o que quisermos e não o que a mãe manda.
Trabalhamos com saudade das férias.
Trabalhamos com saudade de produzir.
Dançamos com saudade da festa e de uma canção que nos arrepia.
Dançamos com saudade de descansar os pés.
Assistimos às guerras com saudade da paz.
Fazemos guerras com saudade do poder e de ganhar.
Viajamos com saudade de conhecer.
Viajamos com saudade de voltar.
Estamos com saudade de estar noutro lado.
Estamos com saudade de voltarmos a estar tal e com qual como estamos já.
Sonhamos com saudade de viver acordados.
Fazemos amor com saudade de fazer mais.
Fazemos amor com saudade de discutir, para depois fazermos as pazes...
Amamos com saudade. Saudade de tudo o que tivémos, do que já temos e do que ainda havemos de querer.
A saudade é somente a pressa de viver, como se o mundo acabasse se não a sentíssemos mais. E se alguma dia isso acontecer... Só em português se poderá dizer porque foi que morremos todos: falta de saudade.
E a saudade é o exemplo maior disso. Os portugueses foram até agora os primeiros a dar o nome a uma coisa que todos os povos sentem mas não têm língua para falá-la numa única palavra.
Ou seja, somos os únicos que sabemos dizer um sentimento que toda a gente tem.
E os outros ficam mudos. E é uma mudez que os cala na presença de tudo o que acontece no mundo. Porque acima de tudo queremos dar palavras às coisas. Ponto.
A saudade está em tudo. E, assim, a saudade é tudo o que é alguma coisa na vida. E o seu contrário.
Acordamos com saudade da cama.
Acordamos com saudade de ir para a rua.
Deitamo-nos com saudade do dia que passou.
Deitamo-nos com saudade de dormir.
Comemos com saudade da comida da mãe.
Comemos com saudade de podermos comer o que quisermos e não o que a mãe manda.
Trabalhamos com saudade das férias.
Trabalhamos com saudade de produzir.
Dançamos com saudade da festa e de uma canção que nos arrepia.
Dançamos com saudade de descansar os pés.
Assistimos às guerras com saudade da paz.
Fazemos guerras com saudade do poder e de ganhar.
Viajamos com saudade de conhecer.
Viajamos com saudade de voltar.
Estamos com saudade de estar noutro lado.
Estamos com saudade de voltarmos a estar tal e com qual como estamos já.
Sonhamos com saudade de viver acordados.
Fazemos amor com saudade de fazer mais.
Fazemos amor com saudade de discutir, para depois fazermos as pazes...
Amamos com saudade. Saudade de tudo o que tivémos, do que já temos e do que ainda havemos de querer.
A saudade é somente a pressa de viver, como se o mundo acabasse se não a sentíssemos mais. E se alguma dia isso acontecer... Só em português se poderá dizer porque foi que morremos todos: falta de saudade.
08 dezembro 2009
o medo
O medo é uma catástrofe natural.
Natural porque é humano, catástrofe porque nos leva a cometer e a pensar (o que ainda é pior do que cometer) grandes disparates. Mas como em todas as catástrofes, o que se segue ao medo é inevitavelmente melhor, porque assim estava escrito na profecia que vem antes de todos os tempos: tudo o que acontece será por um acaso pensado, ou por um destino irreflectido. Como quando se diz que "tudo acontece por uma razão", mesmo que essa razão seja fruto de uma obra passional concebida por Deus(es). As profecias servem para acreditarmos nelas ou não, e eu acredito.
O medo, como escreveu Alexandre O'Neill, num poema assombroso, "vai ter tudo", mas antes que cheguemos a ratos, eu acredito que o medo vai salvar-nos; de sermos filhos da puta, de entrarmos com ganas de maiores em todas a sedes de poder raiano com a corrupção, de sermos rasteiros e manipularmos, de sermos moles de espinha, de não nos permitirmos amar.
Se não fosse o medo, não estaríamos atentos, em guarda, na expectativa de sermos melhores.
Ter medo diferencia os heróis dos cabrões, impulsiona os grandes feitos, ajuda à humildade que nos escapa pelas mãos ávidas de agarrar o reconhecimento que não concedemos a nós próprios, dá-nos a adrenalina para ir em frente - mesmo que às vezes ir em frente seja voltar para trás, até onde nos lembramos de ter identidade.
Ai "o medo vai ter tudo", e serão muitos os que nem experimentarão tê-lo, porque terão medo do medo, mas serão também cada vez mais os que se agarrarão ao medo como a mais segura dúvida metódica para serem corajosos.
O medo serve para avançar. Assim tem de ser, antes que dê cabo de nós.
Natural porque é humano, catástrofe porque nos leva a cometer e a pensar (o que ainda é pior do que cometer) grandes disparates. Mas como em todas as catástrofes, o que se segue ao medo é inevitavelmente melhor, porque assim estava escrito na profecia que vem antes de todos os tempos: tudo o que acontece será por um acaso pensado, ou por um destino irreflectido. Como quando se diz que "tudo acontece por uma razão", mesmo que essa razão seja fruto de uma obra passional concebida por Deus(es). As profecias servem para acreditarmos nelas ou não, e eu acredito.
O medo, como escreveu Alexandre O'Neill, num poema assombroso, "vai ter tudo", mas antes que cheguemos a ratos, eu acredito que o medo vai salvar-nos; de sermos filhos da puta, de entrarmos com ganas de maiores em todas a sedes de poder raiano com a corrupção, de sermos rasteiros e manipularmos, de sermos moles de espinha, de não nos permitirmos amar.
Se não fosse o medo, não estaríamos atentos, em guarda, na expectativa de sermos melhores.
Ter medo diferencia os heróis dos cabrões, impulsiona os grandes feitos, ajuda à humildade que nos escapa pelas mãos ávidas de agarrar o reconhecimento que não concedemos a nós próprios, dá-nos a adrenalina para ir em frente - mesmo que às vezes ir em frente seja voltar para trás, até onde nos lembramos de ter identidade.
Ai "o medo vai ter tudo", e serão muitos os que nem experimentarão tê-lo, porque terão medo do medo, mas serão também cada vez mais os que se agarrarão ao medo como a mais segura dúvida metódica para serem corajosos.
O medo serve para avançar. Assim tem de ser, antes que dê cabo de nós.
09 novembro 2009
se o amor tivesse lógica não arriscávamos
“Se o amor tivesse lógica não arriscávamos”. Esta é uma fala roubada de uma série vista numa noite de insónia no sofá, com os olhos meio inchados.
Quando mudei pela enésima vez de canal, dei com uma criança que estava possuída por Deus. Nessa série Deus é “one of us” e tanto pode ser uma professora chata, como uma criança esperta ou um adolescente punk. E fala para além da Bíblia.
A criança lia uma história de princesas que acaba sempre com “… e viveram felizes para sempre”. A criança falava bem, ou não fosse Deus. Dizia Ela que depois do final feliz vem o trabalho. “O amor verdadeiro dá trabalho”. Mais uma fala roubada. Nem é grande novidade, mas dita por Deus... Guardei-as como se me tivesse caído a moeda que faltava no mealheiro onde conservo as boas e as más memórias emocionais.
E alguém perguntava porque não pode o amor ser mais simples, porque não podemos nós passar ao lado das discussões, das tentações, das angústias, das inseguranças?
E Deus falou assim: “Porque o amor é a mais bela e intensa luz do Universo, que ilumina tudo e todos. E como todas as luzes tem sombra”.
E na madrugada do nono dia do mês de Novembro eu descansei finalmente. Se à lógica nos convertermos jamais seremos capaz de amar.
Talvez até Saramago gostasse mais deste Deus. Um Deus que nos coloca desafios, mas não é castrador ou injusto. A liberdade é uma coisa fantástica. Com ela decidimos o que fazer com o destino. Não mudamos o destino, mas podemos escolher o que fazer com ele. E o amor é sempre o melhor caminho.
Nota: As falas roubadas não estão devidamente transcritas, porque não tinha papel e caneta à mão nem vontade de me levantar do sofá, mas querem dizer o mesmo. Palavra de Deus.
Quando mudei pela enésima vez de canal, dei com uma criança que estava possuída por Deus. Nessa série Deus é “one of us” e tanto pode ser uma professora chata, como uma criança esperta ou um adolescente punk. E fala para além da Bíblia.
A criança lia uma história de princesas que acaba sempre com “… e viveram felizes para sempre”. A criança falava bem, ou não fosse Deus. Dizia Ela que depois do final feliz vem o trabalho. “O amor verdadeiro dá trabalho”. Mais uma fala roubada. Nem é grande novidade, mas dita por Deus... Guardei-as como se me tivesse caído a moeda que faltava no mealheiro onde conservo as boas e as más memórias emocionais.
E alguém perguntava porque não pode o amor ser mais simples, porque não podemos nós passar ao lado das discussões, das tentações, das angústias, das inseguranças?
E Deus falou assim: “Porque o amor é a mais bela e intensa luz do Universo, que ilumina tudo e todos. E como todas as luzes tem sombra”.
E na madrugada do nono dia do mês de Novembro eu descansei finalmente. Se à lógica nos convertermos jamais seremos capaz de amar.
Talvez até Saramago gostasse mais deste Deus. Um Deus que nos coloca desafios, mas não é castrador ou injusto. A liberdade é uma coisa fantástica. Com ela decidimos o que fazer com o destino. Não mudamos o destino, mas podemos escolher o que fazer com ele. E o amor é sempre o melhor caminho.
Nota: As falas roubadas não estão devidamente transcritas, porque não tinha papel e caneta à mão nem vontade de me levantar do sofá, mas querem dizer o mesmo. Palavra de Deus.
11 outubro 2009
exercício com final feliz
Uma vez disseram-me que é quando estou mal que escrevo bem.
Talvez por isso me tenham ligado ontem a perguntar se ando muito feliz pois não tenho escrito no blogue.
Não sei exactamente o que significa "estar mal", porque no fundo nunca estou verdadeiramente mal ou bem. Ultimamente, sobretudo, procuro simplesmente estar. Que é o verbo mais fácil de aplicar.
Estar é como a história do ovo de Colombo, tão simples e, ao mesmo tempo, de tão ceguinhos que andamos, estupidamente inalcançável.
É um exercício difícil, mas muito compensador, este que ando a fazer desde há dois anos. Estar. Aliás, nos últimos três anos, além de falar pelos cotovelos, é mesmo o único exercício confessável que pratico.
O que é estar? Como se pratica?
Não é preciso nenhum equipamento especial nem pagar mensalidades absurdas num ginásio.
Nem corremos o risco de sofrer lesões e de transpirar que nem uns doidos.
Estar é precisamente o contrário disso tudo. É não correr à frente do tempo. É não levantar pesos que não valem o esforço. É não alongar situações penosas. É não contrair músculos com medo do que vão pensar de nós. É, enfim, não trabalhar partes do corpo desnecessariamente, a racionalizar as emoções.
Estar é difícil de praticar. É peciso treino diário. Às vezes até precisamos de um personal trainer para nos ajudar a não desistir. Porque praticar o estar implica resistirmos minuto a minuto a deixarmo-nos levar pelas emoções negativas e, até mesmo, pelas positivas.
A felicidade não pode despender disso. A boa forma significa que aceitemos o bom e o mau sem confundir isso com a nossa identidade.
Estamos lixados com o trabalho? Estamos descorçoados com o namorado(a)? Estamos f... com falta de dinheiro? Ok. Então estamos isso tudo. Aceitamos que existe infelicidade, tristeza, desilusão, o que quer que seja, dentro de nós. Mas isso não pode significar que nos assumamos como uma pessoa infeliz, triste, desiludida. As emoções não podem traduzir-se naquilo que somos enquanto pessoas. O que sentimos não é o que somos.
É de facto um exercício difcil de praticar. Eu disse.
Mas a boa forma que dia-a-dia vamos vendo ao espelho... ui, se compensa.
Da mesma maneira, com as emoções positivas. Euforia, encantamento, enamoramento, tesão, liberdade económica, sucesso profisissional. Tudo isto faz-nos sentir felizes, mas cuidado para não nos esticarmos na passadeira a julgar que vamos ganhar as próximas Olimpíadas e bater recordes.
São emoções. Habitam-nos por tempo indeterminado e intermitente.
Vale a pena deixar fluir a raiva, a ansiedade, a revolta, a alegria, o desejo, a tristeza, a paixão, tudo. É assim que tem de ser e temos de nos aguentar.
O que não vale a pena é confundir isso tudo com o que somos. Somos para além disso.
E já agora, é verdade que estou feliz por estes dias, e até um bocadinho tola. Mas a neura está sempre à porta e o mau feitio também.
Se calhar não tenho escrito no blogue porque ando em treino intensivo.
Talvez por isso me tenham ligado ontem a perguntar se ando muito feliz pois não tenho escrito no blogue.
Não sei exactamente o que significa "estar mal", porque no fundo nunca estou verdadeiramente mal ou bem. Ultimamente, sobretudo, procuro simplesmente estar. Que é o verbo mais fácil de aplicar.
Estar é como a história do ovo de Colombo, tão simples e, ao mesmo tempo, de tão ceguinhos que andamos, estupidamente inalcançável.
É um exercício difícil, mas muito compensador, este que ando a fazer desde há dois anos. Estar. Aliás, nos últimos três anos, além de falar pelos cotovelos, é mesmo o único exercício confessável que pratico.
O que é estar? Como se pratica?
Não é preciso nenhum equipamento especial nem pagar mensalidades absurdas num ginásio.
Nem corremos o risco de sofrer lesões e de transpirar que nem uns doidos.
Estar é precisamente o contrário disso tudo. É não correr à frente do tempo. É não levantar pesos que não valem o esforço. É não alongar situações penosas. É não contrair músculos com medo do que vão pensar de nós. É, enfim, não trabalhar partes do corpo desnecessariamente, a racionalizar as emoções.
Estar é difícil de praticar. É peciso treino diário. Às vezes até precisamos de um personal trainer para nos ajudar a não desistir. Porque praticar o estar implica resistirmos minuto a minuto a deixarmo-nos levar pelas emoções negativas e, até mesmo, pelas positivas.
A felicidade não pode despender disso. A boa forma significa que aceitemos o bom e o mau sem confundir isso com a nossa identidade.
Estamos lixados com o trabalho? Estamos descorçoados com o namorado(a)? Estamos f... com falta de dinheiro? Ok. Então estamos isso tudo. Aceitamos que existe infelicidade, tristeza, desilusão, o que quer que seja, dentro de nós. Mas isso não pode significar que nos assumamos como uma pessoa infeliz, triste, desiludida. As emoções não podem traduzir-se naquilo que somos enquanto pessoas. O que sentimos não é o que somos.
É de facto um exercício difcil de praticar. Eu disse.
Mas a boa forma que dia-a-dia vamos vendo ao espelho... ui, se compensa.
Da mesma maneira, com as emoções positivas. Euforia, encantamento, enamoramento, tesão, liberdade económica, sucesso profisissional. Tudo isto faz-nos sentir felizes, mas cuidado para não nos esticarmos na passadeira a julgar que vamos ganhar as próximas Olimpíadas e bater recordes.
São emoções. Habitam-nos por tempo indeterminado e intermitente.
Vale a pena deixar fluir a raiva, a ansiedade, a revolta, a alegria, o desejo, a tristeza, a paixão, tudo. É assim que tem de ser e temos de nos aguentar.
O que não vale a pena é confundir isso tudo com o que somos. Somos para além disso.
E já agora, é verdade que estou feliz por estes dias, e até um bocadinho tola. Mas a neura está sempre à porta e o mau feitio também.
Se calhar não tenho escrito no blogue porque ando em treino intensivo.
01 outubro 2009
mulher sem cão procura homem com coração
Se a minha vida fosse uma comédia romântica poderia ter este título: Mulher sem cão procura homem com coração... e sem cão.
Homens com cão? Não. Porquê? Porque não. Porque não não é resposta, diz a minha sobrinha Mafaldinha de três anos com o dedo no ar. Pois não é, mas para mim tem chegado e nunca ninguém me pediu explicações maiores sobre o tema.
Hoje resolvi eu mesma pedir-me explicações. E eu não consigo fugir a mim própria.
Ainda no outro dia olhava fascinada para o meu sobrinho de quatro patas, o Disco (um pug de sete quilos, com um focinho giro, giro, capaz de desarmar qualquer um), mas mantive, como sempre, a distância de segurança de pelo menos meio metro. A mãe não me perguntou porque é que eu não o metia no colo e o deixava lamber-me, como todos os outros tios fazem. Ela já sabe que eu não sou aquilo a que se chama uma dog person.
As dog persons são pessoas muito fora de mim, que eu jamais vou conseguir entender totalmente. No fundo admiro a sua capacidade de dádiva e de abnegação social. Ter um cão e devotar-lhe a atenção, o carinho e os cuidados que merece não é para qualquer um. E sinceramente sempre achei que não estou à altura.
Há várias teorias. Que tenho medo de uma mordidela, que fui atacada por cães em criança, que tenho a mania da limpeza e que confusão me fazem os pelos, as lambidelas e o cheiro, entre outras. E ainda o medo de sofrer mais uma perda. São todas verdade.
Mas, no essencial, a mais verdadeira é que ter um cão confronta-me com a fragilidade da vida.
Fico tensa quando percebo que aquele ser depende totalmente de nós, humanos, para sobreviver. Fico sem saber como lidar com a respiração, o palpitar das células debaixo do pelo, os rasgos de inteligênca, de lealdade e de total dependência que observo naqueles seres de quatro patas que levam muitas vezes as vidas dos seus donos à loucura.
Homens com cães foram sempre, portanto, um sinal de que os trabalhos são a dobrar.
Numa alegação perfeitamente egoísta e comodista da minha parte: um homem com cão é um homem que tem um grau de gestão dos seus afectos acima da minha capacidade. E num acto de contrição realmente digno do efeito inquisitório em causa própria: Um homem com cão tem menos tempo para mim.
Será da minha formação católica, ou a confissão é mesmo uma forma de libertação?
Pela quantidade de palavras acabadas em ão neste post, levo-me a crer que, por estes dias, ando com a palavra cão a soar com demasiada frequência na minha cabeça.
Não sou uma dog person. Não creio que alguma vez o seja. Mas sou uma pessoa que gosta de dog persons. Uma "dog persons lover", portanto. Servirá?
24 setembro 2009
a menina dos fósforos
Disseram-me que as pessoas dividem-se em dois tipos: os fósforos e as velas.
Disseram-me também para preferir a chama constante de uma vela, ao clarão fugaz de um fósforo.
Tenho um problema: gosto de fósforos e de velas.
O acto de acender um fósforo, aquele som do raspar, o cheiro, o poder de dar à luz com um simples gesto, ainda por cima baratinho, dá-me prazer. Não se brinca com o fogo, ralhavam os meus pais. E ainda me ralham. Porque eu gosto muito das pessoas fósforo. Incendeiam e incendeiam-me. É um problema.
A presença de uma vela encanta-me. À média luz pode não se ver a comida que se tem à mesa para jantar e confundirmos a realidade inebriados pelo "ambiance", como diz a F.
Mas as velas ardem até ao fim, como escreve Sándor Márai na sua obra-prima.
As pessoas que são velas são constantes. Têm sempre os mesmos pés, apesar de caminharem em direcções várias; têm sempre a mesma cara, mesmo que assumam diferentes faces perante as vidas que vivem; não escondem a alma, ainda que vivam incoerentes.
As pessoas que são velas têm sempre o coração do lado esquerdo, seja ele calhau ou diamante.
Gosto das pessoas fósforo e gosto das pessoas vela. Gosto de pensar que ardem umas com as outras e que todos os fósforos podem um dia acender a vela que há na gaveta lá de casa para quando falta a electricidade. Quando um dia lhes vier à lembrança a luz da alma.
Disseram-me também para preferir a chama constante de uma vela, ao clarão fugaz de um fósforo.
Tenho um problema: gosto de fósforos e de velas.
O acto de acender um fósforo, aquele som do raspar, o cheiro, o poder de dar à luz com um simples gesto, ainda por cima baratinho, dá-me prazer. Não se brinca com o fogo, ralhavam os meus pais. E ainda me ralham. Porque eu gosto muito das pessoas fósforo. Incendeiam e incendeiam-me. É um problema.
A presença de uma vela encanta-me. À média luz pode não se ver a comida que se tem à mesa para jantar e confundirmos a realidade inebriados pelo "ambiance", como diz a F.
Mas as velas ardem até ao fim, como escreve Sándor Márai na sua obra-prima.
As pessoas que são velas são constantes. Têm sempre os mesmos pés, apesar de caminharem em direcções várias; têm sempre a mesma cara, mesmo que assumam diferentes faces perante as vidas que vivem; não escondem a alma, ainda que vivam incoerentes.
As pessoas que são velas têm sempre o coração do lado esquerdo, seja ele calhau ou diamante.
Gosto das pessoas fósforo e gosto das pessoas vela. Gosto de pensar que ardem umas com as outras e que todos os fósforos podem um dia acender a vela que há na gaveta lá de casa para quando falta a electricidade. Quando um dia lhes vier à lembrança a luz da alma.
22 setembro 2009
fui à terra (e uma antevisão de Novembro próximo)
Nos últimos dias fiquei sem argumentos, sem falas, sem bons diálogos. Perdi o rasto à minha personagem. Fiquei sem guião. Quando muito fui figurante e experimentei que quando nem papel secundário temos, tudo o que se observa, escuta e agarra, sente-se mais, dói mais. E até se chora.
Fui à terra. Foi o que aconteceu.
Quando vou à terra, no caso a minha cidade B, Coimbra, durmo numa freguesia rural, que está para a cidade do Mondego como Carnide está para Lisboa. Ali faço sempre duas coisas: visito o cemitério e os poucos familiares que me restam.
Fico sempre em paz por falar com os mortos e abraçar os vivos. O que na minha família é quase a mesma coisa, pois a memória cultiva-se mais que o presente.
A festa da minha família não é o Natal, esse é sempre passado em sossego, sem grandes ajuntamentos familiares e sem grandes consumos calóricos. A família é tão pequena que se divide pelas casas e mini-famílias que dela degeneraram.
A festa da minha família é a festa dos mortos, mas nada tem de mórbido, de tão natural que é.
O feriado de 1 de Novembro, Dia de Todos os Santos, é o dia em que esquecemos as dietas, comemos enchidos, mista grelhada com carne de porco a dar nas vistas, esquecemos o colesterol e a hipertensão que matou a maioria, fazemos um relatório sumário do que andamos a fazer na vida e acaba sempre com muitas castanhas (cruas para mim, se fazem favor) e muita jurupiga e vinho tinto. A política vem sempre à baila, claro, e é nessa altura que me ponho a par dos programas pólis e dos novos projectos para Coimbra. Com o adro da igreja da paróquia ao mesmo nível do Mosteiro de Santa Clara a Velha, que a minha família não tem muita noção da dimensão das coisas.
O dia começa três dias antes com a encomenda dos arranjos florais para as campas. A decisão entre antúrios e orquídeas é sempre muito pesada e a minha mãe exige ver, religiosamente, o portfólio das floristas. Depois é uma agenda complicada de gerir. Horas para ir buscar os arranjos, horas para colocar os arranjos e acender as velas que alumiam as almas. As nossas e as dos nossos mortos. E as horas em que começamos a fazer as brasas para o churrasco. E depois lá vamos em romaria juntarmo-nos a todas as outras famílias que no cemitério se encontram para celebrar. É mesmo uma celebração, das melhores que conheço. Abraços, risos, lágrimas, e a inevitável passagem pelas campas dos outros mortos, de pessoas que nunca conheci mas que eram "raparigas e rapazes da minha idade" como dizem a minha mãe e os meus tios.
É assim desde os meus sete anos. No dia seguinte é o meu aniversário. Quis o destino que eu nascesse no Dia dos Fiéis Defuntos. Eu sempre achei muito bem. Tinha lógica pois então. Que outro dia para eu nascer?
Neste último fim-de-semana, pensei nisto tudo. À memória dos Novembros passados, conclui que a vida tem uma lógica que às vezes só a morte nos faz entender. Calei-me por isso. Falei com os mortos em silêncio, pois eles já sabem tudo, muito mais do que até ao último suspiro nós saberemos. O mistério da vida é isso.
Fui à terra. Fui ao estádio, vi os cachecóis pretos da Académica, cantei a Briosa, vi os cachecóis azuis do Belenenses, lembrei-me de Lisboa, cidade A. Lembrei-me que o futebol não é assim uma coisa tão má, como venho dizendo nos últimos tempos.
Fui às compras, sem comprar. Lembrei-me que comprar trapos e pechisbeque não é assim uma vingança tão boa, como durante anos servi fria.
Fui à terra e fiquei sossegada. Nem um gin "éfe érre á", nem nada. Nem uma saída à noite para ver os rapazes giros de Farmácia (eu sempre achei que os rapazes do curso de Farmácia eram os mais giros, não me perguntem porquê). Neste fim-de-semana estive velha para isso. Lembrei-me que sentir-me velha para certas coisas, às vezes, não é de tótó.
Fui à terra e fiquei sem guião. O mistério da vida é não decorar papéis. Basta lembrar.
Fui à terra. Foi o que aconteceu.
Quando vou à terra, no caso a minha cidade B, Coimbra, durmo numa freguesia rural, que está para a cidade do Mondego como Carnide está para Lisboa. Ali faço sempre duas coisas: visito o cemitério e os poucos familiares que me restam.
Fico sempre em paz por falar com os mortos e abraçar os vivos. O que na minha família é quase a mesma coisa, pois a memória cultiva-se mais que o presente.
A festa da minha família não é o Natal, esse é sempre passado em sossego, sem grandes ajuntamentos familiares e sem grandes consumos calóricos. A família é tão pequena que se divide pelas casas e mini-famílias que dela degeneraram.
A festa da minha família é a festa dos mortos, mas nada tem de mórbido, de tão natural que é.
O feriado de 1 de Novembro, Dia de Todos os Santos, é o dia em que esquecemos as dietas, comemos enchidos, mista grelhada com carne de porco a dar nas vistas, esquecemos o colesterol e a hipertensão que matou a maioria, fazemos um relatório sumário do que andamos a fazer na vida e acaba sempre com muitas castanhas (cruas para mim, se fazem favor) e muita jurupiga e vinho tinto. A política vem sempre à baila, claro, e é nessa altura que me ponho a par dos programas pólis e dos novos projectos para Coimbra. Com o adro da igreja da paróquia ao mesmo nível do Mosteiro de Santa Clara a Velha, que a minha família não tem muita noção da dimensão das coisas.
O dia começa três dias antes com a encomenda dos arranjos florais para as campas. A decisão entre antúrios e orquídeas é sempre muito pesada e a minha mãe exige ver, religiosamente, o portfólio das floristas. Depois é uma agenda complicada de gerir. Horas para ir buscar os arranjos, horas para colocar os arranjos e acender as velas que alumiam as almas. As nossas e as dos nossos mortos. E as horas em que começamos a fazer as brasas para o churrasco. E depois lá vamos em romaria juntarmo-nos a todas as outras famílias que no cemitério se encontram para celebrar. É mesmo uma celebração, das melhores que conheço. Abraços, risos, lágrimas, e a inevitável passagem pelas campas dos outros mortos, de pessoas que nunca conheci mas que eram "raparigas e rapazes da minha idade" como dizem a minha mãe e os meus tios.
É assim desde os meus sete anos. No dia seguinte é o meu aniversário. Quis o destino que eu nascesse no Dia dos Fiéis Defuntos. Eu sempre achei muito bem. Tinha lógica pois então. Que outro dia para eu nascer?
Neste último fim-de-semana, pensei nisto tudo. À memória dos Novembros passados, conclui que a vida tem uma lógica que às vezes só a morte nos faz entender. Calei-me por isso. Falei com os mortos em silêncio, pois eles já sabem tudo, muito mais do que até ao último suspiro nós saberemos. O mistério da vida é isso.
Fui à terra. Fui ao estádio, vi os cachecóis pretos da Académica, cantei a Briosa, vi os cachecóis azuis do Belenenses, lembrei-me de Lisboa, cidade A. Lembrei-me que o futebol não é assim uma coisa tão má, como venho dizendo nos últimos tempos.
Fui às compras, sem comprar. Lembrei-me que comprar trapos e pechisbeque não é assim uma vingança tão boa, como durante anos servi fria.
Fui à terra e fiquei sossegada. Nem um gin "éfe érre á", nem nada. Nem uma saída à noite para ver os rapazes giros de Farmácia (eu sempre achei que os rapazes do curso de Farmácia eram os mais giros, não me perguntem porquê). Neste fim-de-semana estive velha para isso. Lembrei-me que sentir-me velha para certas coisas, às vezes, não é de tótó.
Fui à terra e fiquei sem guião. O mistério da vida é não decorar papéis. Basta lembrar.
16 setembro 2009
mais uma birra
Acabem com os restaurantes com música ao vivo já! Já não há sossego para jantar? Ontem tive de estar aos berros para ouvir e para me fazer ouvir. E o senhor ainda pedia para cantarmos, bailarmos e desfazermo-nos em palmas. Grrrrrrrrrrr Pelo menos baixem o volume, se fazem favor. Valeu, como sempre, a companhia.
14 setembro 2009
cidade sentida
“ Ó tá nevoêrro, ó robarem a Trróia ! “
"Má fea qum batelão da Secil !"
in dialecto sadino mais recente
Fonte: um setubalense nascido e criado (obrigada BJ)
Tenho com Setúbal uma relação parecida com a que tenho com Almada, sou-lhes filha por empréstimo - uma foi o meu distrito, outra o meu concelho - mas nunca as considerei cidades na verdadeira acepção sentida da palavra, talvez porque durante anos vivi sempre o mais à beirinha possível do Tejo, pulando diariamente para Lisboa.
Antes que comecem a insultar-me, calma; Setúbal e Almada são cidades dignas desse nome, com vida e cultura próprias, e com a maravilhosa particularidade de partilharem as praias da Costa Azul (mesmo que agora se diga que robarem Trrroia).
Mas as cidades são para ser vividas ou distantes. Ou se vivem intensamente, ou estão longe de nós e queremos ir visitá-las, cheirá-las e imaginar como seria lá morar. Ora, Setúbal e Almada sempre estiveram demasiado perto e eu nunca as vivi como minhas. Não foram nunca cidades pensadas por mim enquanto tal.
Setúbal foi sempre o sítio ao lado, desde criança uma passagem para o Portinho da Arrábida ou para Tróia, ou um spot gastronómico onde se come choco frrrito e bom peixe fresco. Setúbal é, no fundo, uma cidade aonde tenho ido sem a fazer cidade e sem me fazer a ela enquanto cidade.
Lisboa sempre esteve perto. Vivo dentro dela. Vivi por duas vezes antes desta em permanente competição com a Caparica. Mas nunca nem hoje a senti aqui. É um lugar que está para além da sua condição terrena e existe antes de tudo na minha cabeça.
"Má fea qum batelão da Secil !"
in dialecto sadino mais recente
Fonte: um setubalense nascido e criado (obrigada BJ)
Tenho com Setúbal uma relação parecida com a que tenho com Almada, sou-lhes filha por empréstimo - uma foi o meu distrito, outra o meu concelho - mas nunca as considerei cidades na verdadeira acepção sentida da palavra, talvez porque durante anos vivi sempre o mais à beirinha possível do Tejo, pulando diariamente para Lisboa.
Antes que comecem a insultar-me, calma; Setúbal e Almada são cidades dignas desse nome, com vida e cultura próprias, e com a maravilhosa particularidade de partilharem as praias da Costa Azul (mesmo que agora se diga que robarem Trrroia).
Mas as cidades são para ser vividas ou distantes. Ou se vivem intensamente, ou estão longe de nós e queremos ir visitá-las, cheirá-las e imaginar como seria lá morar. Ora, Setúbal e Almada sempre estiveram demasiado perto e eu nunca as vivi como minhas. Não foram nunca cidades pensadas por mim enquanto tal.
Setúbal foi sempre o sítio ao lado, desde criança uma passagem para o Portinho da Arrábida ou para Tróia, ou um spot gastronómico onde se come choco frrrito e bom peixe fresco. Setúbal é, no fundo, uma cidade aonde tenho ido sem a fazer cidade e sem me fazer a ela enquanto cidade.
Lisboa sempre esteve perto. Vivo dentro dela. Vivi por duas vezes antes desta em permanente competição com a Caparica. Mas nunca nem hoje a senti aqui. É um lugar que está para além da sua condição terrena e existe antes de tudo na minha cabeça.
Aquilo que verdadeiramente amamos temos de o sentir longe, mesmo que cheguemos lá em cinco minutos. Só a sensação do longe nos faz querer estar sempre à beira do salto, ainda que saibamos exactamente onde vamos cair.
07 setembro 2009
FCSH
Aos 15 anos decidi que ia entrar na FCSH - Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, da Universidade Nova de Lisboa, para fazer a licenciatura em Comunicação Social. Um dia fiquei deslumbrada com umas cavalariças que serviam de salas de aula. No telhado uns tipos apanhavam sol. Entendi que ali seria feliz e me formaria em grande estilo para ser a melhor jornalista do mundo e contar estórias nunca antes sabidas. Aos 23, disseram-me, saí comunicóloga e não jornalista. Michel Foucault, Walter Benjamin, Gilles Deleuze e tantos outros, semióticas, teorias da imagem e da representação, hermenêuticas e teorias políticas, tinham-me mostrado que ser jornalista era um pormenor. O curso serviu para alargar a minha visão medíocre, para entender que o mundo comunica desde as pedras da calçada ao vendedor de castanhas, e os média são apenas um dos pontos de passagem. E eu ouvi a FCSH a falar-me assim do fundo das cavalariças: Minha amiga agora é contigo. Entendi a mensagem logo nos primeiros tempos. Entendi-a cedo demais. Ao segundo ano virei as costas parcialmente à FCSH e dediquei-me à rádio. A rádio era como um amante, a tempo (quase) inteiro. Viciava-me e a FCSH não. Da rádio saí com a sensação de um dia voltar. Da FCSH saí com um diploma (e ainda estou para saber como). Maldita melancolia. Saudades da FCSH. Saudades da rádio.
03 setembro 2009
ainda os homens feios
Gostar de um homem feio é uma tentação. Um estado de exibicionismo feminino. Achamos que somos mais belas quando mostramos sem vergonha ao mundo a capacidade de ver a beleza numa face masculina menos consensual. Basta um elemento bonito que se destaque no rosto: uns olhos expressivos, o nariz perfeito, os lábios carnudos, as sobrancelhas carregadas de ciúme, o queixo com covinha, o cabelo à McDreamy, um sorriso safado. Um destes centímetros de carne apenas pode fazer a diferença e servir de argumento para empenharmos os trejeitos mais sedutores que temos à mão. A voz de bronze e a inteligência emocional completam o quadro. E é verdade que também não podem ser demasiado bonzinhos.
o dilema das bonecas russas
A técnica do encaixe social leva-nos a viver acima das nossas possibilidades afectivas. Queremos encaixar no gabinete, na festa de casamento, no quarto da maternidade, na adopção, na relação extra-conjugal, na reunião de pais, no divórcio amigável, no divórcio à estalada, nas calças 36, nos sapatos 37, na revista rosa, no partido do poder, no partido do contra-poder, na inauguração, no namoro, no caso, no affair, na queca de uma noite, na relação para toda a vida, na abstenção eleitoral, na defesa de causas, no condomínio, no bairro histórico, na monovolume, no fiat 500, no Metro, no comboio, nas férias no Algarve, nos museus lá fora, no yoga, no reiki, na filosofia, no liberalismo económico, no Estado providencial, nos blogues, no twitter, no facebook, na recusa das novas tecnologias. Queremos encaixar. Metermo-nos dentro de alguma coisa e sentirmos que o assunto está arrumado. Mas a vida é como as bonecas russas, têm um sistema que desenrosca, salta a tampa e vêm todas cá para fora. Cada uma por si. E talvez mais felizes. E não necessariamente incompletas.
01 setembro 2009
gosto de homens feios
Acabam de me provocar via telefone. Estás muito lamechas. Tudo porque escrevi um post sobre o valor dos amigos de infância. Sinceramente já escrevi coisas mais lamechas, o que num blogue que se chama Estado Afectivo é muito provável de acontecer. Assim, para repor os níveis resolvi fazer um post sobre homens. Apenas para dizer que este é um post sobre homens e nada lamechas. Gosto de homens feios, daquele feio muito bonito, mas tão bonito que desejaria que fossem homens bonitos para eu os achar feios. Perceberam? Pelo menos não é lamechas.
geração de 70
O melhor dos amigos de infância é que nos fazem felizes.
Assemelho o encontro com um amigo de infância que já não via há muito tempo à sensação que experimento quando olho para fotografias antigas e acho que afinal não estou assim tão mal no retrato como pensava na altura. Nunca vos aconteceu?
Os amigos de infância guardam de nós imagens, acções, atitudes, posturas e ideais que não fazíamos sequer ideia que naqueles tempos fossem capazes de captar. O quê? Mas tu tinhas essa ideia de mim? Eu era mesmo assim? Mas tu lembras-te? Como se aos nove, dez, onze ou doze anos seja impossível ter a maturidade de fixar o outro para além dos jeans elásticos e coçados, dos ténis da Nike brancos de lona com o símbolo azul turquesa. Na verdade, em tempo real, não se tem essa capacidade. Não conscientemente. No entanto, em nenhuma outra fase da vida, como na infância e na adolescência, somos máquinas tão perfeitas de armazenamento de factos e imagens dos outros. Sem edição, sem censura, sem perdão.
Depois, na idade adulta esses dados vêm-nos à memória, com legendas e comentários, e uma nitidez incrível.
Se é verdade que é nos amigos que nos revemos, que são eles o nosso espelho mais credível, serão os da infância os mais capazes de nos devolver a auto-estima, o reflexo das nossas melhores qualidades, e até dos defeitos que acarinhamos, porque não sendo pecados graves são coisas cá muito nossas e pronto. É sempre uma surpresa e é sempre comovente quando alguém com quem andei de bicicleta, a jogar ao bate pé, na escola ou nos escuteiros, se lembra de como eu era selectiva nas amizades, de como tinha a mania de pedir coca-cola com gelo e limão e mandar para trás se não vinha assim, de como gostava de organizar coisas e de dar sempre a minha opinião, de falar de ovnis, Deus e almas de outro mundo, de como me passava com as injustiças de nariz no ar, dos joelhos tortos que ainda tenho (desgraça), das birras. De tanta coisa. E a mim acontece o mesmo. Quando reencontro um amigo de criança, surpreendo-me sempre por me lembrar de coisas que na altura me passaram completamente despercebidas, e faço questão de dizê-las. Porque os outros merecem que lhes lembremos que a sua vida não passou em branco para nós. Somos tão nós em miúdos que vale a pena ainda sermos nós em adultos, com uns inevitáveis e desejáveis arranjos aqui e ali de sofisticação e reciclagem do que não importa. Talvez a amizade seja a melhor forma de nos recuperarmos. Talvez seja a mais genuína segunda oportunidade que a vida nos oferece.
Assemelho o encontro com um amigo de infância que já não via há muito tempo à sensação que experimento quando olho para fotografias antigas e acho que afinal não estou assim tão mal no retrato como pensava na altura. Nunca vos aconteceu?
Os amigos de infância guardam de nós imagens, acções, atitudes, posturas e ideais que não fazíamos sequer ideia que naqueles tempos fossem capazes de captar. O quê? Mas tu tinhas essa ideia de mim? Eu era mesmo assim? Mas tu lembras-te? Como se aos nove, dez, onze ou doze anos seja impossível ter a maturidade de fixar o outro para além dos jeans elásticos e coçados, dos ténis da Nike brancos de lona com o símbolo azul turquesa. Na verdade, em tempo real, não se tem essa capacidade. Não conscientemente. No entanto, em nenhuma outra fase da vida, como na infância e na adolescência, somos máquinas tão perfeitas de armazenamento de factos e imagens dos outros. Sem edição, sem censura, sem perdão.
Depois, na idade adulta esses dados vêm-nos à memória, com legendas e comentários, e uma nitidez incrível.
Se é verdade que é nos amigos que nos revemos, que são eles o nosso espelho mais credível, serão os da infância os mais capazes de nos devolver a auto-estima, o reflexo das nossas melhores qualidades, e até dos defeitos que acarinhamos, porque não sendo pecados graves são coisas cá muito nossas e pronto. É sempre uma surpresa e é sempre comovente quando alguém com quem andei de bicicleta, a jogar ao bate pé, na escola ou nos escuteiros, se lembra de como eu era selectiva nas amizades, de como tinha a mania de pedir coca-cola com gelo e limão e mandar para trás se não vinha assim, de como gostava de organizar coisas e de dar sempre a minha opinião, de falar de ovnis, Deus e almas de outro mundo, de como me passava com as injustiças de nariz no ar, dos joelhos tortos que ainda tenho (desgraça), das birras. De tanta coisa. E a mim acontece o mesmo. Quando reencontro um amigo de criança, surpreendo-me sempre por me lembrar de coisas que na altura me passaram completamente despercebidas, e faço questão de dizê-las. Porque os outros merecem que lhes lembremos que a sua vida não passou em branco para nós. Somos tão nós em miúdos que vale a pena ainda sermos nós em adultos, com uns inevitáveis e desejáveis arranjos aqui e ali de sofisticação e reciclagem do que não importa. Talvez a amizade seja a melhor forma de nos recuperarmos. Talvez seja a mais genuína segunda oportunidade que a vida nos oferece.
25 agosto 2009
antes do anoitecer
"Por isso quando pareço não concordar comigo,
reparem bem para mim:
Se estava virado para a direita,
voltei-me agora para a esquerda,
mas sou sempre eu, assente sobre os mesmos pés."
Fernando Pessoa, Minha incoerência de mim
Quando fiz 15 anos recebi de presente de aniversário das minhas amigas o meu primeiro kit anti-rugas. Fui também a primeira de todas a usar protector solar, numa altura em que andava tudo a besuntar-se daquele creme de cenoura que vinha de Espanha num boião e dava "um bronze", achava-se, espectacular. Havia ainda umas loucas que se banhavam em coca-cola, e eu benzia-me. Lembro-me bem quando fui à farmácia comprar o meu primeiro protector solar "especial para a cara", a senhora olhou para mim intrigada e perguntou-me se eu tinha algum problema de pele. Acho que lhe respondi que não, mas que também não queria ter. Ainda guardo o cheiro e a textura, era da marca Copertone e tinha factor de protecção 15, o mais alto que havia. Fui sempre, portanto, uma rapariga preocupada com a saúde da minha pele e embora tenha vivido grande parte da minha vida perto de praias, acabei por receber, já depois dos trinta, o maior elogio que se pode ganhar de um dermatologista: A menina não parece a idade que tem e isso é porque se protege do Sol. Eu sabia. O C. dizia que eu chegava a provocar insolações ao Sol, pois os raios reflectiam na minha pele e voltavam a ele ainda mais fortes... Ainda hoje, se algum amigo se esqueceu do protector, ninguém quer o meu : Não Ana, com o teu a gente não se queima. Mas eu queimo-me só com um arzinho. Sorte. Se não fossem os protectores ficava mesmo preta. Por isso sempre cumpri com brio o horário recomendado pelos médicos: sair da praia ao meio-dia e só regressar depois das quatro. Linda menina. E o que eu tenho infernizado as pessoas à minha volta com esta doutrina. Fundamentalista, gótica, exagerada, chata (o mais vulgar), etc. tenho ouvido de tudo, mas sempre, é certo, de forma carinhosa, como se eu fosse a voz da consciência em época balnear. E até já consegui que algumas amigas começassem a usar ecrã total (adoro este nome) todos os dias. São elas que me vão bater quando lerem o que aqui vem:
Este Verão virei-me ao sol sem temor. E tenho estado na praia na hora proibida. Ana, vamos embora. Nããooooo quero ficar mais um bocadinho, está tão bom. E durmo e viro-me no espeto, entorpecida pelos raios que penetram com prazer nas minhas costas. Bolas, e se sabe bem. Só falta arranjarem-me um protector solar com sabor a molho de churrasco. Por isso hoje fiquei de molho em casa, à sombra. Acordei com a cabeça tola a dar para o outro lado da almofada, escondida de vergonha, a pensar: o Sol vingou-se. No corpo tenho o cheiro a alfazema duma pomada para pruridos e alergias que, segundo o farmacêutico, este ano anda com muita saída. E dói-me o corpo todo, ai ai. Arrasto-me da cama para o sofá, e do sofá para a varanda, e da varanda para o chão. Pois é Ana Cristina, afinal também pertences à maioria que enlouquece no Verão. Meu querido mês de Agosto, sou uma entre tantas. E sou, mesmo quando me viro do avesso, sempre eu. Amanhã volto ao meu horário normal. A beleza e a saúde, por esta ordem (a sinceridade suaviza o pecado da vaidade), agradecem.
reparem bem para mim:
Se estava virado para a direita,
voltei-me agora para a esquerda,
mas sou sempre eu, assente sobre os mesmos pés."
Fernando Pessoa, Minha incoerência de mim
Quando fiz 15 anos recebi de presente de aniversário das minhas amigas o meu primeiro kit anti-rugas. Fui também a primeira de todas a usar protector solar, numa altura em que andava tudo a besuntar-se daquele creme de cenoura que vinha de Espanha num boião e dava "um bronze", achava-se, espectacular. Havia ainda umas loucas que se banhavam em coca-cola, e eu benzia-me. Lembro-me bem quando fui à farmácia comprar o meu primeiro protector solar "especial para a cara", a senhora olhou para mim intrigada e perguntou-me se eu tinha algum problema de pele. Acho que lhe respondi que não, mas que também não queria ter. Ainda guardo o cheiro e a textura, era da marca Copertone e tinha factor de protecção 15, o mais alto que havia. Fui sempre, portanto, uma rapariga preocupada com a saúde da minha pele e embora tenha vivido grande parte da minha vida perto de praias, acabei por receber, já depois dos trinta, o maior elogio que se pode ganhar de um dermatologista: A menina não parece a idade que tem e isso é porque se protege do Sol. Eu sabia. O C. dizia que eu chegava a provocar insolações ao Sol, pois os raios reflectiam na minha pele e voltavam a ele ainda mais fortes... Ainda hoje, se algum amigo se esqueceu do protector, ninguém quer o meu : Não Ana, com o teu a gente não se queima. Mas eu queimo-me só com um arzinho. Sorte. Se não fossem os protectores ficava mesmo preta. Por isso sempre cumpri com brio o horário recomendado pelos médicos: sair da praia ao meio-dia e só regressar depois das quatro. Linda menina. E o que eu tenho infernizado as pessoas à minha volta com esta doutrina. Fundamentalista, gótica, exagerada, chata (o mais vulgar), etc. tenho ouvido de tudo, mas sempre, é certo, de forma carinhosa, como se eu fosse a voz da consciência em época balnear. E até já consegui que algumas amigas começassem a usar ecrã total (adoro este nome) todos os dias. São elas que me vão bater quando lerem o que aqui vem:
Este Verão virei-me ao sol sem temor. E tenho estado na praia na hora proibida. Ana, vamos embora. Nããooooo quero ficar mais um bocadinho, está tão bom. E durmo e viro-me no espeto, entorpecida pelos raios que penetram com prazer nas minhas costas. Bolas, e se sabe bem. Só falta arranjarem-me um protector solar com sabor a molho de churrasco. Por isso hoje fiquei de molho em casa, à sombra. Acordei com a cabeça tola a dar para o outro lado da almofada, escondida de vergonha, a pensar: o Sol vingou-se. No corpo tenho o cheiro a alfazema duma pomada para pruridos e alergias que, segundo o farmacêutico, este ano anda com muita saída. E dói-me o corpo todo, ai ai. Arrasto-me da cama para o sofá, e do sofá para a varanda, e da varanda para o chão. Pois é Ana Cristina, afinal também pertences à maioria que enlouquece no Verão. Meu querido mês de Agosto, sou uma entre tantas. E sou, mesmo quando me viro do avesso, sempre eu. Amanhã volto ao meu horário normal. A beleza e a saúde, por esta ordem (a sinceridade suaviza o pecado da vaidade), agradecem.
15 agosto 2009
à noite todos os gatos são diferentes
Tenho um preconceito estúpido. Isto se considerarmos, e eu considero, que há preconceitos menos estúpidos que outros, ou pelo menos mais justificáveis que outros. Já são mais do que muitas as vezes em que dou comigo a gabar-me de nunca me ter relacionado com alguém que conheci na noite. Não sendo uma coisa propositada (nunca calhou assim), este facto reconcilia-me. Se calhar serve de equilíbrio à minha natural tendência para a boémia, género: Estão a ver? Eu gosto muito de sair à noite mas não sou uma perdida. (Eu avisei logo que era um preconceito estúpido).Talvez porque embirro, precisamente, com essa associação leviana que frequentemente se faz da acção de engate à noite, como se as pessoas só saissem para procurar gajos(as). Ainda no outro dia quando disse a uma amiga que não tem namorado que devia sair mais, ela respondeu-me: achas que eu vou sair para o engate? Valha-me Deus! Apeteceu-me bater-lhe. É que para mim sair à noite é sair ao encontro dos outros e de nós, e de nós com os outros num contexto de evasão, preferencialmente com uma boa banda sonora, alguma bebida para brindar, muita conversa e talvez dançar e sentir o outro lado do dia. E sim, até se pode conhecer alguém interessante. Mas sobre isso eu não sou o melhor exemplo. Já dei comigo a inventar profissões e nomes que não tenho, a ficar com números de telefone aos quais nunca ligo e a dizer muitas vezes: Sabes? Não vale a pena. Mas também já conheci pessoas de quem fiquei amiga e que de dia não me desiludiram. E também já reencontrei amores à noite. Agora, encontrar o amor na noite? Só se for num dia muito especial.
Carrie de trazer por cá
As minhas amigas querem que eu seja a Carrie da série o Sexo e a Cidade. E a R. é quem tem mais essa mania. A R. meteu mesmo na cabeça que eu sou a Carrie. E está sempre a perguntar: Quando é que escreves sobre mim? Quando é que contas as nossas coisas? Quando escreves um livro sobre as mulheres e os homens? Palavra de honra que eu fico sempre a olhar para ela a pensar que ela é de tal forma minha amiga que distorceu as minhas capacidades e vê-me com um outfit que não é o meu. E que outfit tem a Carrie! Já lhe expliquei que o meu cartão de crédito não tem plafond para o que ela me pede. Mas ela é como os bancos nos anos 90, dá-me crédito e depois logo se vê.
A R. nem sequer é a maior fã da série, gosta mas não é a sua série de culto. Só que o Sexo e a Cidade, mesmo para quem não é fiel seguidor, ampliou no pequeno ecrã as virtudes e os segredos que tecem a amizade feminina. As costuras que unem cada pedaço de tecido das roupas que compramos juntas e vestimos quando vamos sair, as palavras de conforto e de alegria após um desaire ou sucesso amoroso, as discussões sobre as diferentes perspectivas da vida, os batons e outros acessórios fúteis que cobrem a auto-estima e dão um novo significado à palavra supérfulo. Mas o que sempre prevaleceu no guião de cada episódio é a amizade. Esse é o verdadeiro objecto trendy da série, mais do que o sexo ou a cidade. Embora, ainda hoje haja quem considere que as histórias se resumiam a muita depravação com sede em NY... O que é uma pena. Eu até costumava, a propósito disso, ter uma regra para distinguir os homens; aqueles que viam a série dessa maneira eram logo saneados. Só serviam para amigos, porque aos amigos tudo se perdoa.
Tenho Charlottes, Mirandas, Carries e Samanthas entre as minhas amigas todas. Samanthas, por acaso, estão em minoria (para eventual tristeza dos leitores masculinos deste blogue). Carries? Só conheço mais uma... a T. Mas acima de tudo, tenho amigas com um bocadinho de todas elas. Eu não me importo de ser a Carrie de serviço e tentar pô-las ao corrente de si próprias sempre que calhe. A R. fica contente.
(A R., já agora, é Carrie pela parte dos sapatos e Charlotte por várias outras partes, incluindo a afeição por seres caninos).
A R. nem sequer é a maior fã da série, gosta mas não é a sua série de culto. Só que o Sexo e a Cidade, mesmo para quem não é fiel seguidor, ampliou no pequeno ecrã as virtudes e os segredos que tecem a amizade feminina. As costuras que unem cada pedaço de tecido das roupas que compramos juntas e vestimos quando vamos sair, as palavras de conforto e de alegria após um desaire ou sucesso amoroso, as discussões sobre as diferentes perspectivas da vida, os batons e outros acessórios fúteis que cobrem a auto-estima e dão um novo significado à palavra supérfulo. Mas o que sempre prevaleceu no guião de cada episódio é a amizade. Esse é o verdadeiro objecto trendy da série, mais do que o sexo ou a cidade. Embora, ainda hoje haja quem considere que as histórias se resumiam a muita depravação com sede em NY... O que é uma pena. Eu até costumava, a propósito disso, ter uma regra para distinguir os homens; aqueles que viam a série dessa maneira eram logo saneados. Só serviam para amigos, porque aos amigos tudo se perdoa.
Tenho Charlottes, Mirandas, Carries e Samanthas entre as minhas amigas todas. Samanthas, por acaso, estão em minoria (para eventual tristeza dos leitores masculinos deste blogue). Carries? Só conheço mais uma... a T. Mas acima de tudo, tenho amigas com um bocadinho de todas elas. Eu não me importo de ser a Carrie de serviço e tentar pô-las ao corrente de si próprias sempre que calhe. A R. fica contente.
(A R., já agora, é Carrie pela parte dos sapatos e Charlotte por várias outras partes, incluindo a afeição por seres caninos).
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