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07 abril 2010

analyse this

A esquizofrenia chegou à minha escrita e não sei o que fazer. Sempre gostei de estar acompanhada, de cafés cheios de gente, de muitos amigos à mesa, de muitos piscar de olhos, de muitos abraços e afectos. Gosto de gente e gosto de gostar e gosto-me assim. O meu percurso de vida sempre o fiz sozinha, mas numa solidão bem acompanhada; mantenham-se perto mas deixem-me em paz quando quero... mas mantenham-se perto, ok? E assim, chegou um convite para escrever num blogue de um amigo que conheci recentemente e com quem troquei apenas... quê? Duas ou três palavras e uns sorrisos. Gosto de sorrir e de querer bem a quem me parece bem. E tenho um talento: sei reconhecer as boas almas. É um facto. E assim, lá entrei no Amor nos Tempos da Blogosfera. Não sei porquê - talvez porque é um canto com mais gente, e gente é o meu negócio - deu-me mais ganas de escrever. Mas agora sinto-me esquizofrénica, e que me perdoem os que dessa deonça padecem, por estar a ser abusiva, mas eu abuso. Aqui no Estado Afectivo vou resguardar-me? Não sei. Vou bipolarizar-me. Escrever para não me deixar morrer de amor. Acho que é a única via para viver e errar.

14 fevereiro 2010

post's retroactivos... 1

Hoje, dia que chamam dos namorados, resolvi reflectir sobre o amor. E resolvi também rever algumas coisas que escrevi num blogue que tive há uns anos, na descoberta da blogosfera, e que se chamava Código de Santiago. A idade também nos traz isto: revermo-nos à distância de uns anos e perceber que nos traduzimos na soma das nossas "vidas passadas". Os códigos mudam quando mudam as nossas residências interiores. Algumas coisas que escrevi ainda vivem comigo, outras não passam da memória de um apeadeiro onde me sentei por um tempo.

Aqui vai um dos antigos:

Homens temporariamente sós
A vida não está fácil para os homens trintões. Tenho uma série de amigos que vivem sós, com existências intercaladas por encontros sexuais fugazes e relações que deixam mágoas e conduzem a um ateísmo amoroso de que não há memória. No outro dia um deles desabafou: O que raio querem as mulheres? Eu, que tenho sempre qualquer coisa a dizer, fiquei sem resposta. Nem as mulheres sabem o que querem! Essa é a verdade. Ou, pelo menos, não sabem o que querem sempre... Umas vezes queremos umas coisas, outras vezes o contrário dessas... A única resposta cabal que ouvi nos últimos tempos foi somente esta: Gosto de um homem que me faça rir todos os dias! Sinceramente não a compreendi... Mas isso fica para outro post. Ontem disse a outro amigo (que acredita que um amor a sério nunca se repete e que a oportunidade dele já passou) uma coisa verdadeiramente estúpida: Os homens não podem tratar as mulheres bem demais... Que grande parvoíce esta. Nem sei o que queria dizer com isto. Só sei que mais cedo ou mais tarde, a maioria dos meus amigos trintões sós vai acabar por casar com alguém que está à mão de preencher um vazio, compôr a casa, constituir família, etc, sem glória, sem paixão, e sem um pingo de desilusão sequer... Aquela que sempre advém de um grande amor!
Junho 2004

08 dezembro 2009

o medo

O medo é uma catástrofe natural.
Natural porque é humano, catástrofe porque nos leva a cometer e a pensar (o que ainda é pior do que cometer) grandes disparates. Mas como em todas as catástrofes, o que se segue ao medo é inevitavelmente melhor, porque assim estava escrito na profecia que vem antes de todos os tempos: tudo o que acontece será por um acaso pensado, ou por um destino irreflectido. Como quando se diz que "tudo acontece por uma razão", mesmo que essa razão seja fruto de uma obra passional concebida por Deus(es). As profecias servem para acreditarmos nelas ou não, e eu acredito.

O medo, como escreveu Alexandre O'Neill, num poema assombroso, "vai ter tudo", mas antes que cheguemos a ratos, eu acredito que o medo vai salvar-nos; de sermos filhos da puta, de entrarmos com ganas de maiores em todas a sedes de poder raiano com a corrupção, de sermos rasteiros e manipularmos, de sermos moles de espinha, de não nos permitirmos amar.

Se não fosse o medo, não estaríamos atentos, em guarda, na expectativa de sermos melhores.

Ter medo diferencia os heróis dos cabrões, impulsiona os grandes feitos, ajuda à humildade que nos escapa pelas mãos ávidas de agarrar o reconhecimento que não concedemos a nós próprios, dá-nos a adrenalina para ir em frente - mesmo que às vezes ir em frente seja voltar para trás, até onde nos lembramos de ter identidade.

Ai "o medo vai ter tudo", e serão muitos os que nem experimentarão tê-lo, porque terão medo do medo, mas serão também cada vez mais os que se agarrarão ao medo como a mais segura dúvida metódica para serem corajosos.

O medo serve para avançar. Assim tem de ser, antes que dê cabo de nós.

09 novembro 2009

se o amor tivesse lógica não arriscávamos

“Se o amor tivesse lógica não arriscávamos”. Esta é uma fala roubada de uma série vista numa noite de insónia no sofá, com os olhos meio inchados.
Quando mudei pela enésima vez de canal, dei com uma criança que estava possuída por Deus. Nessa série Deus é “one of us” e tanto pode ser uma professora chata, como uma criança esperta ou um adolescente punk. E fala para além da Bíblia.
A criança lia uma história de princesas que acaba sempre com “… e viveram felizes para sempre”. A criança falava bem, ou não fosse Deus. Dizia Ela que depois do final feliz vem o trabalho. “O amor verdadeiro dá trabalho”. Mais uma fala roubada. Nem é grande novidade, mas dita por Deus... Guardei-as como se me tivesse caído a moeda que faltava no mealheiro onde conservo as boas e as más memórias emocionais.
E alguém perguntava porque não pode o amor ser mais simples, porque não podemos nós passar ao lado das discussões, das tentações, das angústias, das inseguranças?
E Deus falou assim: “Porque o amor é a mais bela e intensa luz do Universo, que ilumina tudo e todos. E como todas as luzes tem sombra”.
E na madrugada do nono dia do mês de Novembro eu descansei finalmente. Se à lógica nos convertermos jamais seremos capaz de amar.
Talvez até Saramago gostasse mais deste Deus. Um Deus que nos coloca desafios, mas não é castrador ou injusto. A liberdade é uma coisa fantástica. Com ela decidimos o que fazer com o destino. Não mudamos o destino, mas podemos escolher o que fazer com ele. E o amor é sempre o melhor caminho.

Nota: As falas roubadas não estão devidamente transcritas, porque não tinha papel e caneta à mão nem vontade de me levantar do sofá, mas querem dizer o mesmo. Palavra de Deus.

15 outubro 2009

e ele veio atrás de mim

Naquela noite as escadas, ainda estranhas porque são de uma casa alheia onde não me mexo bem, pareceram-me intermináveis. Foi como se estivesse a descer até a uma parte de mim, o meu piso térreo, onde tenho reservadas algumas coisas sem qualquer tipo de utilidade. A ideia é um dia arrumá-las todas.
Até aí tenho-me quase sempre passeado no piso superior, mais arejado, mais bonito, com pelo na venta, nariz empinado e uns sorrisos demolidores. E ainda um olhar que, dizem, é fodido. E esta é a primeira vez que escrevo semelhante palavra. Mas não foi eu quem a disse, apenas aqui transcrevo.


Naquela noite, dizia eu, lá tive de descer ao piso térreo, que felizmente tem uma porta de janelas largas, com saída para a rua. A noite estava quente, mas eu estava a ferver e o fresco soube-me como uma água tónica com muito gelo e limão em pleno deserto. Ainda um dia, aliás, hei-de fazer isso, e com um bocadinho de gin se o dia estiver a correr bem.

Naquela noite, desci as escadas com um desejo terreno de deixar cair umas lágrimas. No piso superior as lágrimas são quase sempre de crocodilo ou então ficam armazenadas em forma de dores de cabeça e peso nos olhos, como se fizéssemos uma barragem. E sabemos que as barragens não são coisas da natureza, são coisas dos homens inteligentes que se lembraram de as inventar.

As lágrimas que vale a pena à alma derramar são terrenas, viscerais, vêm dos intestinos feitos num nó pelo medo, do estômago contraído de ansiedade, da barriga prenha de emoções mal digeridas. As lágrimas são a força da verdade que às vezes não queremos ver, na forma da mentira, sombra companheira de toda a vida que nos ajuda a manter o perfil.

Naquela noite desci as escadas, fui à varanda e limpei o meu chão com algumas lágrimas. E ele veio atrás de mim. E então a barragem abriu as comportas. Ele veio nas suas quatro patas, com a sua baba nojenta e a tropeçar nas orelhas, coitado, e ajudou-me a lavar o meu chão. E quanto mais eu chorava mais claro eu via.

E depois voltei ao piso superior, com todos os meus trejeitos de sempre. Não engano ninguém. Mas também já não me engano a mim própria.

Obrigada G.

Ps - Este post é patrocinado por uma marca de toalhetes de um grande hipermercado.

11 outubro 2009

exercício com final feliz

Uma vez disseram-me que é quando estou mal que escrevo bem.
Talvez por isso me tenham ligado ontem a perguntar se ando muito feliz pois não tenho escrito no blogue.

Não sei exactamente o que significa "estar mal", porque no fundo nunca estou verdadeiramente mal ou bem. Ultimamente, sobretudo, procuro simplesmente estar. Que é o verbo mais fácil de aplicar.
Estar é como a história do ovo de Colombo, tão simples e, ao mesmo tempo, de tão ceguinhos que andamos, estupidamente inalcançável.

É um exercício difícil, mas muito compensador, este que ando a fazer desde há dois anos. Estar. Aliás, nos últimos três anos, além de falar pelos cotovelos, é mesmo o único exercício confessável que pratico.

O que é estar? Como se pratica?
Não é preciso nenhum equipamento especial nem pagar mensalidades absurdas num ginásio.
Nem corremos o risco de sofrer lesões e de transpirar que nem uns doidos.

Estar é precisamente o contrário disso tudo. É não correr à frente do tempo. É não levantar pesos que não valem o esforço. É não alongar situações penosas. É não contrair músculos com medo do que vão pensar de nós. É, enfim, não trabalhar partes do corpo desnecessariamente, a racionalizar as emoções.

Estar é difícil de praticar. É peciso treino diário. Às vezes até precisamos de um personal trainer para nos ajudar a não desistir. Porque praticar o estar implica resistirmos minuto a minuto a deixarmo-nos levar pelas emoções negativas e, até mesmo, pelas positivas.
A felicidade não pode despender disso. A boa forma significa que aceitemos o bom e o mau sem confundir isso com a nossa identidade.

Estamos lixados com o trabalho? Estamos descorçoados com o namorado(a)? Estamos f... com falta de dinheiro? Ok. Então estamos isso tudo. Aceitamos que existe infelicidade, tristeza, desilusão, o que quer que seja, dentro de nós. Mas isso não pode significar que nos assumamos como uma pessoa infeliz, triste, desiludida. As emoções não podem traduzir-se naquilo que somos enquanto pessoas. O que sentimos não é o que somos.

É de facto um exercício difcil de praticar. Eu disse.
Mas a boa forma que dia-a-dia vamos vendo ao espelho... ui, se compensa.

Da mesma maneira, com as emoções positivas. Euforia, encantamento, enamoramento, tesão, liberdade económica, sucesso profisissional. Tudo isto faz-nos sentir felizes, mas cuidado para não nos esticarmos na passadeira a julgar que vamos ganhar as próximas Olimpíadas e bater recordes.
São emoções. Habitam-nos por tempo indeterminado e intermitente.
Vale a pena deixar fluir a raiva, a ansiedade, a revolta, a alegria, o desejo, a tristeza, a paixão, tudo. É assim que tem de ser e temos de nos aguentar.
O que não vale a pena é confundir isso tudo com o que somos. Somos para além disso.

E já agora, é verdade que estou feliz por estes dias, e até um bocadinho tola. Mas a neura está sempre à porta e o mau feitio também.
Se calhar não tenho escrito no blogue porque ando em treino intensivo.

01 outubro 2009

mulher sem cão procura homem com coração

Se a minha vida fosse uma comédia romântica poderia ter este título: Mulher sem cão procura homem com coração... e sem cão.

Homens com cão? Não. Porquê? Porque não. Porque não não é resposta, diz a minha sobrinha Mafaldinha de três anos com o dedo no ar. Pois não é, mas para mim tem chegado e nunca ninguém me pediu explicações maiores sobre o tema.

Hoje resolvi eu mesma pedir-me explicações. E eu não consigo fugir a mim própria.

Ainda no outro dia olhava fascinada para o meu sobrinho de quatro patas, o Disco (um pug de sete quilos, com um focinho giro, giro, capaz de desarmar qualquer um), mas mantive, como sempre, a distância de segurança de pelo menos meio metro. A mãe não me perguntou porque é que eu não o metia no colo e o deixava lamber-me, como todos os outros tios fazem. Ela já sabe que eu não sou aquilo a que se chama uma dog person.

As dog persons são pessoas muito fora de mim, que eu jamais vou conseguir entender totalmente. No fundo admiro a sua capacidade de dádiva e de abnegação social. Ter um cão e devotar-lhe a atenção, o carinho e os cuidados que merece não é para qualquer um. E sinceramente sempre achei que não estou à altura.

Há várias teorias. Que tenho medo de uma mordidela, que fui atacada por cães em criança, que tenho a mania da limpeza e que confusão me fazem os pelos, as lambidelas e o cheiro, entre outras. E ainda o medo de sofrer mais uma perda. São todas verdade.
Mas, no essencial, a mais verdadeira é que ter um cão confronta-me com a fragilidade da vida.
Fico tensa quando percebo que aquele ser depende totalmente de nós, humanos, para sobreviver. Fico sem saber como lidar com a respiração, o palpitar das células debaixo do pelo, os rasgos de inteligênca, de lealdade e de total dependência que observo naqueles seres de quatro patas que levam muitas vezes as vidas dos seus donos à loucura.

Homens com cães foram sempre, portanto, um sinal de que os trabalhos são a dobrar.
Numa alegação perfeitamente egoísta e comodista da minha parte: um homem com cão é um homem que tem um grau de gestão dos seus afectos acima da minha capacidade. E num acto de contrição realmente digno do efeito inquisitório em causa própria: Um homem com cão tem menos tempo para mim.

Será da minha formação católica, ou a confissão é mesmo uma forma de libertação?

Pela quantidade de palavras acabadas em ão neste post, levo-me a crer que, por estes dias, ando com a palavra cão a soar com demasiada frequência na minha cabeça.

Não sou uma dog person. Não creio que alguma vez o seja. Mas sou uma pessoa que gosta de dog persons. Uma "dog persons lover", portanto. Servirá?




22 setembro 2009

fui à terra (e uma antevisão de Novembro próximo)

Nos últimos dias fiquei sem argumentos, sem falas, sem bons diálogos. Perdi o rasto à minha personagem. Fiquei sem guião. Quando muito fui figurante e experimentei que quando nem papel secundário temos, tudo o que se observa, escuta e agarra, sente-se mais, dói mais. E até se chora.

Fui à terra. Foi o que aconteceu.

Quando vou à terra, no caso a minha cidade B, Coimbra, durmo numa freguesia rural, que está para a cidade do Mondego como Carnide está para Lisboa. Ali faço sempre duas coisas: visito o cemitério e os poucos familiares que me restam.
Fico sempre em paz por falar com os mortos e abraçar os vivos. O que na minha família é quase a mesma coisa, pois a memória cultiva-se mais que o presente.

A festa da minha família não é o Natal, esse é sempre passado em sossego, sem grandes ajuntamentos familiares e sem grandes consumos calóricos. A família é tão pequena que se divide pelas casas e mini-famílias que dela degeneraram.
A festa da minha família é a festa dos mortos, mas nada tem de mórbido, de tão natural que é.

O feriado de 1 de Novembro, Dia de Todos os Santos, é o dia em que esquecemos as dietas, comemos enchidos, mista grelhada com carne de porco a dar nas vistas, esquecemos o colesterol e a hipertensão que matou a maioria, fazemos um relatório sumário do que andamos a fazer na vida e acaba sempre com muitas castanhas (cruas para mim, se fazem favor) e muita jurupiga e vinho tinto. A política vem sempre à baila, claro, e é nessa altura que me ponho a par dos programas pólis e dos novos projectos para Coimbra. Com o adro da igreja da paróquia ao mesmo nível do Mosteiro de Santa Clara a Velha, que a minha família não tem muita noção da dimensão das coisas.

O dia começa três dias antes com a encomenda dos arranjos florais para as campas. A decisão entre antúrios e orquídeas é sempre muito pesada e a minha mãe exige ver, religiosamente, o portfólio das floristas. Depois é uma agenda complicada de gerir. Horas para ir buscar os arranjos, horas para colocar os arranjos e acender as velas que alumiam as almas. As nossas e as dos nossos mortos. E as horas em que começamos a fazer as brasas para o churrasco. E depois lá vamos em romaria juntarmo-nos a todas as outras famílias que no cemitério se encontram para celebrar. É mesmo uma celebração, das melhores que conheço. Abraços, risos, lágrimas, e a inevitável passagem pelas campas dos outros mortos, de pessoas que nunca conheci mas que eram "raparigas e rapazes da minha idade" como dizem a minha mãe e os meus tios.

É assim desde os meus sete anos. No dia seguinte é o meu aniversário. Quis o destino que eu nascesse no Dia dos Fiéis Defuntos. Eu sempre achei muito bem. Tinha lógica pois então. Que outro dia para eu nascer?

Neste último fim-de-semana, pensei nisto tudo. À memória dos Novembros passados, conclui que a vida tem uma lógica que às vezes só a morte nos faz entender. Calei-me por isso. Falei com os mortos em silêncio, pois eles já sabem tudo, muito mais do que até ao último suspiro nós saberemos. O mistério da vida é isso.

Fui à terra. Fui ao estádio, vi os cachecóis pretos da Académica, cantei a Briosa, vi os cachecóis azuis do Belenenses, lembrei-me de Lisboa, cidade A. Lembrei-me que o futebol não é assim uma coisa tão má, como venho dizendo nos últimos tempos.
Fui às compras, sem comprar. Lembrei-me que comprar trapos e pechisbeque não é assim uma vingança tão boa, como durante anos servi fria.
Fui à terra e fiquei sossegada. Nem um gin "éfe érre á", nem nada. Nem uma saída à noite para ver os rapazes giros de Farmácia (eu sempre achei que os rapazes do curso de Farmácia eram os mais giros, não me perguntem porquê). Neste fim-de-semana estive velha para isso. Lembrei-me que sentir-me velha para certas coisas, às vezes, não é de tótó.

Fui à terra e fiquei sem guião. O mistério da vida é não decorar papéis. Basta lembrar.

24 agosto 2009

meu querido Agosto

O pai que empurra o carrinho. O bebé alagado em suor com o chapéuzito comprado para as férias a dar com o fato de banho. A mãe que carrega as papas, as fraldas e as mudas de roupa. O avô que orienta a direcção a tomar na praia. A avó que ora segue refilando de algum contratempo a que ninguém liga ou sorrindo pela prole que iniciou. As avós são complexas. E depois os adolescentes que só querem que os primos mais velhos os orientem logo à noite para sair. As miúdas comparam fatos de banhos e tops. Os miúdos armam-se. Mostram-se todos bronzeados e elas empinadas em saltos que lhes entortam o andar. Mas persistem, não desistem de fazer figura. E não desistem daquelas calças ao fundo da barriga que não favorecem a figura e sairam de moda. Os miúdos são giros. Sorrio sempre ao vê-los. A verdade é que gosto de adolescentes. Sobretudo em férias quando a parvoíce e a inocência se mostram de barriga ao léu e com os cabelos em trejeitos que parecem terem sido encomendados de mota. A adolescência comove-me. E antes disso, as crianças. As crianças não me comovem, despertam-me e fazem-me rir de alegria. Ainda hoje um puto de sete anos ao ser contemplado com um espirro de uma senhora mais velha, que não teve tempo nem equilíbrio no barco para seguir as regras anti-gripe A, levantou-se a correr para o lado oposto da lancha com as pequenas mãos a tapar cada sarda do seu rosto, o nariz e a boca, os olhos muito esbugalhados, e desconfio que ficou sem respirar o resto da viagem. Tive de me conter para não dizer à mãe daquela criança que tinha parido um belíssimo contributo para o nosso futuro. Mesmo giro o rapaz. Do outro lado, os velhos locais de olhar húmido que assistem como eu ao desfile de tudo isto. Pergunto se sentirão o mesmo que eu. Ou se eu já serei velha e olho para tudo como eles. Não pergunto se vemos o mesmo, pergunto-me se veremos da mesma maneira. Com o distanciamento próprio de quem não se quer já, ou ainda (?), comprometer. Como se os outros estivessem num casting, no qual não haverá vencedores nem vencidos, todos têm o seu papel, mas que eu observo sem vergonha e sem nenhum fim a não ser esse mesmo - assistir à beleza da condição humana. Sempre assim foi desde criança, observar os outros tornou-se a maior fonte do meu rendimento escolar e profissional. Às vezes dão-me cotoveladas e pontapés debaixo da mesa para eu parar de olhar que as pessoas podem sentir-me mal. Mas não é por mal que eu o faço. É uma paixão. Eu sou apaixonada por pessoas. Pelas suas fraquezas, pela coragem de viver, pela sacanice, pela humildade, pela incoerência, pela estupidez, pela inteligência... Porque são as pessoas que me provocam mais emoções. Da raiva à compaixão, fazem-me sentir. E sentir é a única coisa que não nos faz arrepender de ousar crescer. Agosto, mês de estágio de todas as esperanças, destila o povo que há dentro deste país. Não é assim um mês tão estúpido.

15 agosto 2009

dicas

Há muito tempo atrás um amigo que me é muito querido, e que leva alguns anos de avanço sobre mim, disse-me que só há duas coisas que temos de saber sobre a vida: primeiro que é muito melhor estar vivo do que estar morto; segundo, a vida é muito, mas mesmo muito, irónica. Lembro-me que fiquei a olhar para ele com aquele ar que faço de menina que está a acreditar no que os mais velhos dizem, mas por trás está a tramar a próxima... e pensei que, no mínimo, ele era básico. E eu estava, pois claro, uns furos acima. Ontem lembrei-me desse episódio e fartei-me de rir sozinha. Tinhas toda a razão pá. Só acrescento uma coisa: A vida, além de irónica, é muito, mas mesmo muito, engraçada.

11 agosto 2009

birras (ou como gerir a causa da independência)

Depois do último fim-de-semana percebi melhor porque é que quando Alguém resolveu fazer a minha maqueta genética pôs lá uma grande torre chamada Independência. O raio da torre é alta que se farta, tem uma escada em caracol que desmotiva os mais persistentes e eu raramente desço e molho os pés no fosso que está à volta com um dragão psicadélico... A minha torre da Independência é o meu monumento de estimação, classificado pela UNESCO e tudo.
No último fim-de-semana percebi que preciso urgentemente de encomendar ao Arquitecto um projecto que reenquadre urbanisticamente e de forma sustentável a torre no resto do condomínio, pois corro o risco de ter cada vez mais dificuldade em manter o edificado em bom estado à custa de não querer abdicar das velhas estruturas... Obrigada a todos os que no último fim-de-semana aguentaram com a queda de alguns tijolos em cima da cabeça. Estar convicta da razão não justifica tudo e seguir o rebanho pode ser altamente pedagógico. Tenham lá paciência comigo, mas a reabilitação urbana é uma tarefa de jurisdição partilhada e uma grande chatice para os governos em causa própria.

22 julho 2009

pub emocional

Os conselhos para a vida são como a publicidade no intervalo dos filmes ou de uma boa série, são uma seca. O meu preferido, que chega a dar vómitos, é: "Se eu não gostar de mim quem gostará". Há outros mais refinados como o"Você é a sua melhor companhia". Mas logo hoje dei comigo a ser a publicidade no meio da seca de vida de uma amiga. Ou seja, enviei-lhe via msn uma variação mal escrita desses slogans rasteirinhos: "tu tens é q sentir-te bem com o q fizeste e n precisas de ng para te fazer sentir emlhor". Contextualizando: a minha amiga cumpriu hoje, com grande estilo, uma difícil tarefa profissional e estava triste porque de momento não tem ninguém (ser masculino) que se sinta orgulhoso dela e a faça sentir feliz. Contextualizando ainda mais: a minha amiga queria ter a seu lado um homem que reconhecesse o ser maravilhoso que ela é. E eu, lá vai disto, disse-lhe a verdade. Porque por muito pimbas que sejam esses conselhos, tirando-lhes a foleirice, o cliché e a desidratação intelectual, são verdadeiros como o caraças, esse mito urbano. Como podemos esperar que os outros nos reconheçam se nós próprios não somos capazes de nos reconhecer? Esta frase que acabei de escrever acabou também de me dar vontade de chicotear-me fortemente com o fio do carregador do telemóvel, que é o instrumento de tortura que tenho mais a mão, mas é a verdade. E já que estou neste caminho sem retorno, penitencio-me com mais um spot (a minha vida segue dentro de momentos, após este intervalo para pub emocional): Ninguém me compreende. E... ? E têm de ser os outros a compreender-me, se eu própria, tantas vezes, na minha escrita interna, não ponho um a à frente de um b? Depois disto vou pôr o filme a correr e desejar que tenha um final feliz, de preferência com a minha amiga a arranjar um namorado que valha a pena. Porque mais cedo ou mais tarde, depois de termos dado uns quantos beijos e abraços em nós próprios, surje alguém que vai gastar a saliva connosco e encenar aquele beijo cinematográfico que todos queremos, mesmo que o outro esteja de quarentena com gripe A. Somos uns pirosos, e a culpa nem sequer é da publicidade.

14 julho 2009

poder, esse escultor das relações

Palpita-me que sobre o poder e as relações, ou o poder nas relações, ou o poder das relações ainda hei-de escrever muito. As duas palavras, unidas pelos diferente artigos, sugerem inúmeras combinações e atalhos. E o tempo, que também é um escultor, como dizia Yourcenar, me dará um pouco de si para isso. Espero. Na espera, que não é a acção da vida em que sou melhor, confesso, compenso-me a concluir orgulhosamente que já passei da atracção pelo poder (poderoso afrodisíaco), à consciência da forma como uso o poder ou a ambição dele no início ou promessa de cada relação. É de facto tudo uma questão de poder. Não de quem manda, não de quem chega mais longe, não de quem brilha mais. É o poder de usar a outra pessoa para definir-me como eu acho que devo ser. Arrisco a dizer também: como eu acho que os outros me vêem ou me querem ver. E mais por agora não consigo dizer. É uma questão de tempo.

26 junho 2009

decretos

Quando eu for grande... É assim que tudo começa. Os homens que escolhemos (embora às vezes ainda achemos que são eles que nos escolhem... ), as relações de amizade que colhemos, as relações de trabalho com que nos comprometemos, o dinheiro que nos sobra ou que nos falta logo aos primeiros dias do mês, enfim, os embrulhos que damos à nossa vida começam num decreto que exaramos se calhar no colo dos pais ou quando reviramos as panelas na cozinha, nesse mundo que só alcançamos a poucos centímetros do chão. Há decretos com piada. Eu, por exemplo, dizia que quando fosse grande ia andar sempre muito pintada e muito arranjada. Há outros que têm uma piada relativa, como afrmar que quando crescermos vamos fazer tudo o que nos apetece e que ninguém vai mandar em nós (sim, esse também era o meu decreto). Há outros que não têm piada mesmo nenhuma, como decretar que todos os homens estão abaixo da qualidade e da perfeição do pai ou na periferia do altar da mãe... Estes lixam-nos. Porque com ou sem piada todos os decretos que fazemos na infância são, parece, estruturantes do nosso percurso. São trunfos, alguns, e forças de bloqueio, outros. E é na idade adulta, com a bagagem a rebentar pelas costuras, que sentimos os seus efeitos. Muitas vezes, esses decretos têm a parceria jurídica dos adultos, os consultores que ajeitam os nosso tótós com lacinhos e nos dizem que somos as meninas mais lindas e mais inteligentes do mundo, ou que dão uma palmada nas costas aos rapazitos (que ainda agora estão a descobrir que as meninas têm uma coisa que não é a pilinha) e lhes dizem que um dia vão conquistar as raparigas mais giras... Depois vem um tempo em que é preciso revogar esses decretos. Esse tempo é bem vindo. É bom quando se percebe que há leis que já não se aplicam. Que afinal não temos de ser a mais linda, o mais popular ou a bem comportada que não faz cenas. Que não faz mal chorar, que não perdemos a dignidade se mandarmos um berro de vez em quando e que os adultos que somos hoje são tão imperfeitos como os que conhecemos ontem. Somos todos crescidos a viver no mesmo sistema de justiça. Há decretos que podem cair por terra. Mesmo que depois fique um certo vazio legal.

24 junho 2009

pretérito presente

O calendário é a maior ilusão da cura. Somos como os prisioneiros dos filmes que vão riscando cada dia que passa, como se encurtássemos a espera ou arrumássemos mais um problema. O tempo cura tudo, dizem. Mas raramente estamos a tempo do tempo cronológico. A cura só começa quando recolhemos todas as pontas soltas que ficaram para trás no calendário e integramos essas partes nossas que ficam com os outros, com as situações mal resolvidas, com as discussões adiadas, com as emoções não digeridas. Compreender e aceitar essas partes de nós menos felizes, eis o início da cura. É um exercício verdadeiramnete difícil: viver o agora, aceitar o passado e não correr atrás do futuro. É que olhar para a frente é demasiado fácil. O amanhã só faz sentido se não nos doerem as costas pelos fardos que nos impusémos, se não nos doerem as pernas pelos passos que não demos, se não nos incharem as mãos pelas acções que não tomámos ou tomámos mal, se não nos apertar a garganta pelos gritos e emoções que não soltámos, se não nos doer a barriga pelos medos que não resolvemos, se não quisermos fazer sexo pelos abandonos que sofremos e que provocámos, senão nos doer a cabeça pelas lágrimas que não deixámos cair, se não quisermos beber pela rejeição que sentimos... O corpo de dor é um mal de calendário, de futuro apressado. Não vale a pena regressar ao futuro, se ainda não voltámos do passado.

23 junho 2009

generosidade

Desde criança que tenho um dom que me tem dado alguma vantagem sobre a minha espécie. Consigo ver sempre o lado negro dos outros. É instantâneo. É maravilhoso e poderoso, e na maior parte das vezes, ao contrário do que acontece com o resto das minhas facetas, é uma coisa que consigo manter na clandestinade e "disfarçar". Ou seja, na maioria das vezes, os outros mortais não imaginam que eu já lhes fiz o relatório e que sei o que eles próprios não sonham sonhar ou admitir. Aquele ar saturado que exala pelas frestas do corpo, que muitos não sentem, eu cheiro. É também um poder visual, como se fizesse a radiografia e visse as manchas e as fracturas da personalidade. É uma verdadeira capacidade de desmontar o outro e escolher depois o que quero ver e com o que quero conviver. No fundo, o lado negro atrai-me. Sei por onde vou, iludo-me com o que quero, desiludo-me com o que já sabia, e às vezes meto a mão na ferida. No fundo, eu amo o lado negro. Felizmente, os seres que convivem comigo e os que vou encontrando por aí são maravilhosos (tenho sorte na vida, é o que é) e têm luz suficiente, eles próprios, para aceitarem o meu lado negro... Em troca, gostava de desenvolver um novo dom, a acrescentar ao de criança: deixar que ao meu lado os outros brilhem mais que eu. Deixar que ao meu lado, os outros sejam sempre a melhor versão deles próprios. Como se todos os lados negros do mundo pudessem ser uma enorme mancha escura que se eleva no ar e nos deixa respirar a todos melhor. E assim seria generosa também comigo própria, porque pior que ver o avesso dos outros é ver o meu.