25 agosto 2009

orgulho

Às vezes gosto de provocar e sinto orgulho nisso. Dá-me para isso instintivamente sempre que estou na presença de alguém que cai na exuberância intelectual, na arrogância de tudo achar saber. Quando começam a elencar doutrinas e autores lidos como se fosse uma lista de supermercado fico tão enjoada como quando andava no Expresso das Beiras, de Lisboa à Covilhã. A vertigem que sinto é semelhante à que sentia quando passava em Alpedrinha e fechava os olhos para não criar imagens mentais de um autocarro a cair por ali abaixo. E é isso que me apetece que aconteça a essas pessoas: que caiam por ali abaixo do pedestal académico. Que dizer? Não tenho paciência. Admiro pessoas sábias e inteligentes. Gosto de estar na sua presença, de ouvir, aprender, e para mim a inteligência é, não escondo, um afrodisíaco potente. Não suporto é quem enverga a erudição como identidade e humilha quem à sua beira emite inocentemente uma ou outra vibração, por muito ténue que seja, que possa servir de alimento ao apetite voraz dos intelectuais por disparates, erros e omissões. A última vez que senti a náusea do Expresso das Beiras, claro está que pequei mais uma vez. Depois de assistir a um vergonhoso debate entre um intelectual e uma pessoa inteligente (logo que não sabe tudo nem sonha saber), dei por terminada a conversa que pendia finalmente para o meu lado desta maneira: Ó pá não sei nem me interessa a tua pergunta, sabes, desde que saí da faculdade só leio a Vogue. Depois deixei o intelectual em Alpedrinha, a olhar lá para baixo, peguei na pessoa inteligente e fomos beber copos.

4 comentários:

Jose disse...

Ana, a Vogue é uma óptima leitura! Apesar de eu preferir a Vanity Fair :)
Beijos
José Lúcio D.

O Bom Rebelde disse...

E assim se destrói um intelectual. O gajo que até tinha potencial que poderia até, um dia, sei lá, ser um político, ou até um elemento razoavelmente produtivo da sociedade, subsiste hoje por entre sessões de terapia e dos AA. :)

AS disse...

Como dizia alguém, Deus faz-me boa pessoa, mas não hoje. :-)

Pierrot le pan de pan disse...

a "náusea do Expressso da Beira" parece-me bem!
quanto a essas conversas de encher chouriças epistemológicas... conheço um que resolvia assim a discussão, quando esses números lhe tocavam por tabela: "ouve, se insistes em continuar a usar palavras de 7 e quinhentos, pego-te pelos fundilhos e mando contigo ao rio e acaba-se já aqui a discussão. ganho eu."

saúde e prosperidade.